assunto: [CINEBRASIL] REGIONALIZAÇÃO PERVERSA

autor: Roberto Faria / email autor: rf.farias em uol.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Terça Dezembro 19 00:41:33 BRST 2006


CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Gabriela, querida.
Você acha que naquela época os bancos emprestavam assim facilmente? Fui o
primeiro cineasta que conseguiu um empréstimo em banco, sabia? Tive a sorte
de encontrar um sujeito chamado José Luiz Magalhães Lins, um dos sócios do
Banco Nacional. Fui lá indicado por Fernando Barosa Lima, um publicitário,
dono de uma agência chamada Squire, Luiz Carlos Barreto foi comigo. O
banqueiro não me emprestou o dinheiro assim, facilmente. Primeiro pediu meu
currículo, que consistia de 12 anos de cinema como profissional, 14 filmes
como assistente e 4 filmes realizados como diretor. Nesta altura, eu já
havia empenhado a casa do meu pai com um agiota, dirigido e co-produzido
meus dois primeiros filmes,  e concorrido em Cannes com Cidade Ameaçada.
José Luiz pediu para ver. Fiz uma sessão para ele. Perguntou se eu me
importava de associar-me com Herbert Richers, na época o maior produtor de
cinema e grande distribuidor. José Luiz era e é um visionário, um mecenas,
mas não me deu o dinheiro. Chamou o Herbert e perguntou se ele me avalisava,
Herbert me conhecia como profissional e disse que sim. José Luiz disse,
então, que eu avalisaria o Herbert e ele emprestaria 50% do nosso orçamento
para cada um. Fiz o filme e paguei o empréstimo.  Daquele momento em diante,
todo o Cinema Novo foi atrás e a maioria dos filmes daquele movimento foi
financiado assim. Era a visão de um banqueiro, que tomou todas as precauções
possíveis para emprestar o dinheiro.

Você dirá que isso não existe mais.  Acredito. Mas nem todos os filmes
feitos então tinham dinheiro de banco. Muito antes, Nelson Pereira fez seus
filmes juntando um dinheirinho, conseguindo algumas latas de filme, comendo
sanduíche e dormindo numa pensão com a equipe. Muitos filmes foram feitos
assim. Estou certo de que ainda existe gente como José Luiz.  Os banqueiros
de hoje também são assim, depende de como você chega neles e o que você tem
para oferecer como bagagem e com quem você está associada. Particularmente,
lancei vários novos diretores com recursos de minha empresa. As leis de
incentivo foram boas por um lado, mas desvituaram a atividade pelo outro.
Cada um que consegue recursos é um produtor, sem lastro e sem experiência. 

Estou certo de que se não houvesse leis de incentivo, os que têm vocação e
determinação encontrariam meios e modos de fazer filmes. Principalmente se
na outra ponta houvesse, além do mercado, os incentivos de um bom adicional
de renda. os verdadeiros profissionais estariam mais fortes. Os diretores
estreantes seriam aqueles que tivessem bagagem e estreariam do mesmo modo,
até conseguirem conquistar seu espaço para produzir seus próprios filmes.

Beijos
Roberto

Caro Roberto:

Existem várias coisas com as quais eu concordo contigo e com
o Santeiro. 
A primeira é do Santeiro profetizando, meio tardiamente, o
fim da película, mesmo que ele fique dando apoio aos
curta-metragistas que querem enfiar o custo das cópias em
película nos exibidores, sendo que uma das soluções para
exibição de curtas nos cinemas é justamente digital.
Mas, voltando ao esforço de produzir filmes antigamente sem
o dinheiro do governo, com empréstimos no banco. Digamos,
caro Roberto, que existia uma coisa que a juventude
antigamente tinha que a nossa não tem: crédito. E banco não
empresta dinheiro a quem não tem crédito. Por exemplo, para
ter dinheiro emprestado pelo banco vce tem que ter conta
corrente. Coisa que para ter tem que ter emprego, carteira
assinada ou alguma comprovação de renda etc. Hoje o mercado
de trabalho é, na maioria das vezes, informal. Se você
chegar no banco e dizer, olha só amigo banqueiro, eu não
consigo comprar um apartamento a prestação para empenhar
aqui no seu banco porque a Caixa econômica Federal não
aceita a minha comprovação de renda no mercado informal, mas
eu tenho certeza de que vce vai achar genial a minha idéia
de fazer um filme em um mercado de cinema brasileiro falido
e vai aceitar como garantia a minha genialidade que é
baseada nos filmes do Glauber. Bom, se ele emprestar o
dinheiro, eu peço para me contratarem com carteira assinada
para que eu possa fazer o mesmo. Mas, com toda certeza a
culpa não é da vontade da juventude já que tudo o que a
juventude quer é crédito. 

Abraços
Gabriela  



> Caro Santeiro.
> Não sei se você me lê, mas eu leio você. Também me lembro
de um roteiro do 
> Glauber, o da Idade da Terra. Só quem sabia valorizar
currículos seria capaz 
> de financiar o filme, como nós, na Embrafilme daquele
tempo. Não era um 
> roteiro, eram anotações sem qualquer preocupação de ser
julgado por elas. 
> Divergimos, sim, ele queria um orçamento enorme que eu não
podia conceder 
> porque ultrapassava de muito os valores habituais, algo
como três ou quatro 
> vezes. Gustavo sugeriu a ele que apresentasse um orçamento
dentro dos 
> parâmetros. A contragosto, ele apresentou e eu assinei o
financiamento. À 
> tarde, do mesmo dia, ele apresentou um pedido de reajuste
segundo o 
> orçamento original. Genial, não? O importante é que o
filme foi realizado. 
> Hoje estamos todos no mesmo balaio. Jovens, velhos,
estreantes, com 
> currículo, sem currículo, com cadastro, sem cadastro, à
mercê de comissões 
> que decidem nossas vidas com o dinheiro público. Como você
bem disse, 
> roteiro não é filme. Um bom roteiro pode dar um mau filme
e um mau roteiro 
> idem. No longa, o que acontece é que a ambição é maior e
quem é amigo dos 
> homens, pratica tráfico de influência ou sabe como
manipular a contabilidade 
> é que se dá bem.
> 
> Quando eu quis fazer experiências mais ousadas, sem dar
bola para o público, 
> com Selva Trágica, o fiz às minhas custas, quase perdi meu
apartamento 
> comprado com mais de 10 anos de trabalho e fiquei
trabalhando mais de um ano 
> para pagar dívidas no banco. 90% dos filmes que fiz na
vida foram assim, com 
> recursos ganhos no cinema.
> 
> Mas esta mensagem é para cumprimentar você por sua coragem
em dizer que a 
> iniciativa de fazer deve recair sobre quem realmente
deseja encarar a sério 
> esta nossa sofrida profissão.  Esta é minha posição. Fazer
primeiro e ser 
> recompensado depois. Há os que fazem curtas sem
incentivos. Merecem todo 
> apoio. E o que é um longa, senão o equivalente a três
curtas? Se o mesmo 
> princípio for adotado longa, eles também farão longas..
> 
> Por que estou a tanto tempo sem dirigir um filme? Porque o
mercado encolheu. 
> E já que você citou o antigo Instituto Nacional do Cinema
INC, cito também. 
> Havia o adicional de renda que premiava os filmes segundo
sua aceitação pelo 
> público na bilheteria. Os selecionados por uma comissão
segundo o critério 
> de qualidade recebiam um plus independentemente de sua
performance na 
> bilheteria. Uma comissão que premia um filme pronto tem
pouca margem para 
> fazer besteira ou privilegiar amigos. Por isso sou a favor
de um adicional 
> de renda substancial. É para isso que ele serve - para
complementar o 
> mercado. O mesmo princípio que permite haver aviões
sobrevoando a Amazônia, 
> de enormes distâncias, onde a iniciativa privada não
pagaria seus custos, se 
> o governo não complementasse o valor dos bilhetes aéreos.
E eu já disse que 
> o desenvolvimento do cinema brasileiro custaria não mais
que 20% dos 
> recursos empregados hoje pelo governo na atividade.
Provavelmente, como eu, 
> você será criticado como ultrapassado por sugerir hoje a
aplicação de 
> modelos de ontem, ou seja, será chamado de velho... mas
lucidez, geralmente, 
> não é qualidade dos novos... Mas a diferença entre o
modelo de hoje é 
> gritante.
> Abraços, caro guerreiro
> Roberto Farias
> 
> Repito abaixo sua mensagem:
> 
> "Como foi feito Terra Em Transe? Não haviam recursos
incentivados. O Estado 
> não se metia na produção. A recompensa vinha depois,
premiando o esforço de 
> quem nasceu para isso e não aos que garimpam facilidades
nas diversas áreas 
> de atividade.
> 
>  Meus caros a questão não é geopolítica. Não há pessoa,
entidade, juri ou 
> critério que tenha o direito de excluir 780 projetos. Quem
não merece? Só 
> quem não for brasileiro ou não pagar imposto de renda. Os
demais outros são 
> contribuintes e os recursos são publicos, somatório destas
contribuições. É 
> precioso e preciso repensar o sistema. Depois
> chorar, não vale. Acabou chorare. Chororô, xô!
> 
> A coisa mais inteligente no genero que eu saiba, além da
lei do curta 
> universalmente aplicada, é um velho mecanismo do antigo
Instituto Nacional 
> do Cinema Educativo - INCE, que era a "compra de direitos
de contratipagem 
> para exibição não-comercial". Xôu de bola. Em nossos
tempos digitais 
> bastaria o Minc adquirir tais direitos de uma matriz
digital conveniente, 
> digamos, uma beta analógica que é o que se usa amplamente.
Baixo custo de 
> produção, remuneração equânime, suporte conveniente para
> exibição digital. A película acabou. Azar da Kodak.
> 
> Dirão voces, e quem banca a produção, oras, é o produtor,
em nosso caso, o 
> realizador. E os estreantes, pois é, terão a chance de
estrear, bancando-se 
> como o não estreante. Afinal ao estreante é preciso
primeiro estrear antes 
> de estrelar. Nunca vi ninguem dar uma ponte para um
engenheiro estreante 
> estrear, nem uma operação de coração para um cardiologista
neófito. Há que 
> ralar cambada, mostrar serviço, dizer a que veio, fazer
política para 
> ampliar as condições de produção e exibição de nossos filmes.
> 
> Nunca vi e nem ouvi falar de filme em papel. Roteiro bom
se é que isto 
> existe é apenas uma peça literária, manda pra ver se ganha
o Nobel, não 
> garante nem sugere bom filme, o mau tambem. Jamais me
esquecerei do roteiro 
> de "Terra em Transe", voces nem imaginam o que era. E
tambem não me 
> esquecerei que o Niemeyer ganhou o concurso para a
construção de Brasília 
> com duas fôlhas de papel manteiga a nanquim.
> 
> Boa briga, e deixa o Esporte em paz. O problema é a
Rouanet garantir o caixa 
> dois das estatais e fundações privadas e subsidiar a
cultura importada. O 
> nosso Esporte o amador tambem é nosso, dá pra partilhar
com ele, o que não 
> dá é pra sustentar os ômi e os seus puteiros de luxo.
Salve espíritos.
> Sergio Santeiro."
> 
> 
> 
> 
> Enviada por: "Roberto Faria" <rf.farias em uol.com.br>
> 

Enviada por: "Gabriela Campedelli" <gbic em uol.com.br>

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