
autor: Roberto Faria / email autor: rf.farias em uol.com.br
RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Terça Dezembro 19 12:28:23 BRST 2006
CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Caro Francis.
Você fala de uma lógica que eu não defendi. Em todo caso, vou tentar
responder sua dúvida principal. "Por que as empresas privadas participam tão
pouco? " Para mim, é muito simples. O incentivo fiscal oferecido é ridículo.
As críticas que vejo sobre a Lei do Audiovisual resume-se no fato de que a
empresa que usa seus 3% do Imposto de Renda já sai no lucro, antes mesmo de
saber o resultado do filme em que aplicou esses recursos. Isso é uma cortina
de fumaça. Veja bem: Um filme custa, no barato, uns 3 milhões, depois de
pronto. Para uma empresa investir sozinha num filme e se candidatar a tal
benefício, precisa ter 100 milhões de imposto a pagar no fim do ano. Que
empresas privadas são essas? Imagine o ridículo: você ou eu batemos na porta
dessa empresa para oferecer um grande negócio - o da Lei do Audiovisual, em
que ele vai ganhar "os tubos", como se dizia antigamente. Põe 3% do imposto
a pagar, recebe tudo de volta e sai ganhando uma merreca sobre o que
aplicou. Uma empresa desse porte não quer nem ouvir falar em Lei do
Audiovisual para não perder tempo. O que interessa a ela é ganhar mais no
seu próprio negócio mil vezes maior e melhor que o que a Lei do Audiovisual
proporciona. Essa Lei não foi feita para criar indústria cinematográfica.
Salvo os abnegados funcionários, dirigentes, cineastas que errado ou certo
lutam pelo cinema brasileiro, não há no governo ninguém que realmente esteja
pensando nisso. A Lei do Audiovisual, assim como a Rouanet são um cala-boca
para os artistas, estes sim, visionários, delirantes que acreditam no que
fazem e aproveitam qualquer oportunidade que lhes ofereçam para extravasar
suas angústias, preocupações, desejos de mudar o mundo. Quando o governo
realmente quer dinamizar um setor, faz como quando quis vender as Teles,
chama os empresários, vende a eles empresas nacionais na bacia das almas,
oferece bilhões para eles participem dos leilões e permite o desconto de
100% no imposto de renda do que exceder ao preço mínimo estabelecido no
leilão, até que a empresa ganhadora receba de volta o que investiu! Se o
governo realmente quisesse implantar uma indústria de cinema no Brasil
ofereceria não 3%, mas 30 ou 40 durante determinado tempo. Faria uma
legislação inteligente que garantisse aos produtores independentes uma parte
desse bolo.
Abraços
Roberto
----- Original Message -----
From: "Francis Vale" <francisvale em fortalnet.com.br>
To: <cinemabrasil em cinemabrasil.org.br>
Sent: Monday, December 18, 2006 10:19 AM
Subject: Re: [CINEBRASIL] REGIONALIZAÇÃO PERVERSA
Caro Roberto,
Em outra oportunidade, comentei o comentário do Santeiro, dando força a seus
pontos de vista.
Agora, peço licença pra dizer alguma coisa sobre o que você escreveu.
Em primeiro lugar, acho suas considerações lúcidas e lógicas. No entanto, a
lucidez e a lógica não parecem convencer muito, no momento. Alguém já falou
isso antes. Não lembro quem.
Pra muita gente, é perfeitamente "lógico" um concurso de 800 em que 10 ganham
e o resto sobra. Afinal, no jogo do bicho é assim: a cada extração são
premiadas 10 milhares. Está consagrada a "lógica bicheira".
Apesar de as leis de incentivos estarem abertas a todos os contribuintes do
Imposto de Renda, poucas são as empresas que aparecem nos créditos dos filmes
brasileiros. E quase sempre as mesmas: ESTATAIS. Portanto, os filmes são
patrocinados pelo ESTADO via ESTATAIS.Pior: nem todas as ESTATAIS estão
investindo no audiovisual. Algumas criaram os seus centros culturais e neles
investem de acordo com a lógica dos burocratas do setor. O mesmo acontece com
os "institutos" pertencentes a grandes grupos econômicos, inclusive do setor
das COMUNICAÇÕES (EPA!).Por que as empresas privadas participam tão pouco?
Será porque sabem que suas logomarcas serão vistas por reduzido público? Ou
porque há projetos mais interessantes em outras áreas? Pela LÓGICA, o
audiovisual deveria ser a área mais atraente. Se não é, há outros fatores de
convencimento mais fortes que a LÓGICA. Por enquanto, estou muito interessado
em saber que fatores são esses.
Um abraço do
Francis
>
> Caro Santeiro.
> Não sei se você me lê, mas eu leio você. Também me lembro de um
> roteiro do Glauber, o da Idade da Terra. Só quem sabia valorizar
> currículos seria capaz de financiar o filme, como nós, na Embrafilme
> daquele tempo. Não era um roteiro, eram anotações sem qualquer
> preocupação de ser julgado por elas. Divergimos, sim, ele queria um
> orçamento enorme que eu não podia conceder porque ultrapassava de
> muito os valores habituais, algo como três ou quatro vezes. Gustavo
> sugeriu a ele que apresentasse um orçamento dentro dos parâmetros. A
> contragosto, ele apresentou e eu assinei o financiamento. À tarde,
> do mesmo dia, ele apresentou um pedido de reajuste segundo o
> orçamento original. Genial, não? O importante é que o filme foi
> realizado. Hoje estamos todos no mesmo balaio. Jovens, velhos,
> estreantes, com currículo, sem currículo, com cadastro, sem cadastro,
> à mercê de comissões que decidem nossas vidas com o dinheiro
> público. Como você bem disse, roteiro não é filme. Um bom roteiro
> pode dar um mau filme e um mau roteiro idem. No longa, o que
> acontece é que a ambição é maior e quem é amigo dos homens, pratica
> tráfico de influência ou sabe como manipular a contabilidade é que
> se dá bem.
>
> Quando eu quis fazer experiências mais ousadas, sem dar bola para o
> público, com Selva Trágica, o fiz às minhas custas, quase perdi meu
> apartamento comprado com mais de 10 anos de trabalho e fiquei
> trabalhando mais de um ano para pagar dívidas no banco. 90% dos
> filmes que fiz na vida foram assim, com recursos ganhos no cinema.
>
> Mas esta mensagem é para cumprimentar você por sua coragem em dizer
> que a iniciativa de fazer deve recair sobre quem realmente deseja
> encarar a sério esta nossa sofrida profissão. Esta é minha posição.
> Fazer primeiro e ser recompensado depois. Há os que fazem curtas sem
> incentivos. Merecem todo apoio. E o que é um longa, senão o
> equivalente a três curtas? Se o mesmo princípio for adotado longa,
> eles também farão longas..
>
> Por que estou a tanto tempo sem dirigir um filme? Porque o mercado
> encolheu. E já que você citou o antigo Instituto Nacional do Cinema
> INC, cito também. Havia o adicional de renda que premiava os filmes
> segundo sua aceitação pelo público na bilheteria. Os selecionados
> por uma comissão segundo o critério de qualidade recebiam um plus
> independentemente de sua performance na bilheteria. Uma comissão que
> premia um filme pronto tem pouca margem para fazer besteira ou
> privilegiar amigos. Por isso sou a favor de um adicional de renda
> substancial. É para isso que ele serve - para complementar o
> mercado. O mesmo princípio que permite haver aviões sobrevoando a
> Amazônia, de enormes distâncias, onde a iniciativa privada não
> pagaria seus custos, se o governo não complementasse o valor dos
> bilhetes aéreos. E eu já disse que o desenvolvimento do cinema
> brasileiro custaria não mais que 20% dos recursos empregados hoje
> pelo governo na atividade. Provavelmente, como eu, você será
> criticado como ultrapassado por sugerir hoje a aplicação de modelos
> de ontem, ou seja, será chamado de velho... mas lucidez, geralmente,
> não é qualidade dos novos... Mas a diferença entre o modelo de hoje
> é gritante. Abraços, caro guerreiro Roberto Farias
>
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<BODY>
<DIV><FONT face=Arial size=2>Caro Francis.</FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2>Você fala de uma lógica que eu não defendi. Em
todo
caso, vou tentar responder sua dúvida principal. "Por que as empresas privadas
participam tão pouco? " Para mim, é muito simples. O incentivo fiscal oferecido
é ridículo. As críticas que vejo sobre a Lei do Audiovisual resume-se no
fato de
que a empresa que usa seus 3% do Imposto de Renda já sai no lucro, antes mesmo
de saber o resultado do filme em que aplicou esses recursos. Isso é uma cortina
de fumaça. Veja bem: Um filme custa, no barato, uns 3 milhões, depois de
pronto.
Para uma empresa investir sozinha num filme e se candidatar a tal benefício,
precisa ter 100 milhões de imposto a pagar no fim do ano. Que empresas privadas
são essas? Imagine o ridículo: você ou eu batemos na porta dessa empresa para
oferecer um grande negócio - o da Lei do Audiovisual, em que ele vai ganhar "os
tubos", como se dizia antigamente. Põe 3% do imposto a pagar, recebe tudo de
volta e sai ganhando uma merreca sobre o que aplicou. Uma empresa desse porte
não quer nem ouvir falar em Lei do Audiovisual para não perder tempo. O que
interessa a ela é ganhar mais no seu próprio negócio mil vezes maior e melhor
que o que a Lei do Audiovisual proporciona. Essa Lei não foi feita para criar
indústria cinematográfica. Salvo os abnegados funcionários, dirigentes,
cineastas que errado ou certo lutam pelo cinema brasileiro, não há no governo
ninguém que realmente esteja pensando nisso. A Lei do Audiovisual, assim como a
Rouanet são um cala-boca para os artistas, estes sim, visionários, delirantes
que acreditam no que fazem e aproveitam qualquer oportunidade que lhes ofereçam
para extravasar suas angústias, preocupações, desejos de mudar o mundo.
Quando o
governo realmente quer dinamizar um setor, faz como quando quis vender as
Teles,
chama os empresários, vende a eles empresas nacionais na bacia das almas,
oferece bilhões para eles participem dos leilões e permite o desconto de
</FONT><FONT size=5><STRONG>100% </STRONG></FONT><FONT size=3>no imposto de
renda do que exceder ao preço mínimo estabelecido no leilão, até que a empresa
ganhadora receba de volta o que investiu! Se o governo realmente quisesse
implantar uma indústria de cinema no Brasil ofereceria não 3%, mas 30 ou 40
durante determinado tempo. Faria uma legislação inteligente que garantisse aos
produtores independentes uma parte desse bolo. </FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2>Abraços</FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2>Roberto</FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
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<DIV><FONT face=Arial size=2>----- Original Message ----- </FONT>
<DIV><FONT face=Arial size=2>From: "Francis Vale" <</FONT><A
href="mailto:francisvale em fortalnet.com.br"><FONT face=Arial
size=2>francisvale em fortalnet.com.br</FONT></A><FONT face=Arial
size=2>></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2>To: <</FONT><A
href="mailto:cinemabrasil em cinemabrasil.org.br"><FONT face=Arial
size=2>cinemabrasil em cinemabrasil.org.br</FONT></A><FONT face=Arial
size=2>></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2>Sent: Monday, December 18, 2006 10:19
AM</FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2>Subject: Re: [CINEBRASIL] REGIONALIZAÇÃO
PERVERSA</FONT></DIV></DIV>
<DIV><FONT face=Arial><BR><FONT size=2></FONT></FONT></DIV><FONT face=Arial
size=2>Caro Roberto,<BR><BR>Em outra oportunidade, comentei o comentário do
Santeiro, dando força a seus <BR>pontos de vista.<BR>Agora, peço licença pra
dizer alguma coisa sobre o que você escreveu. <BR>Em primeiro lugar, acho suas
considerações lúcidas e lógicas. No entanto, a <BR>lucidez e a lógica não
parecem convencer muito, no momento. Alguém já falou <BR>isso antes. Não lembro
quem. <BR>Pra muita gente, é perfeitamente "lógico" um concurso de 800 em
que 10
ganham <BR>e o resto sobra. Afinal, no jogo do bicho é assim: a cada extração
são <BR>premiadas 10 milhares. Está consagrada a "lógica bicheira". <BR>Apesar
de as leis de incentivos estarem abertas a todos os contribuintes do
<BR>Imposto
de Renda, poucas são as empresas que aparecem nos créditos dos filmes
<BR>brasileiros. E quase sempre as mesmas: ESTATAIS. Portanto, os filmes são
<BR>patrocinados pelo ESTADO via ESTATAIS.Pior: nem todas as ESTATAIS estão
<BR>investindo no audiovisual. Algumas criaram os seus centros culturais e
neles
<BR>investem de acordo com a lógica dos burocratas do setor. O mesmo acontece
com <BR>os "institutos" pertencentes a grandes grupos econômicos, inclusive do
setor <BR>das COMUNICAÇÕES (EPA!).Por que as empresas privadas participam tão
pouco? <BR>Será porque sabem que suas logomarcas serão vistas por reduzido
público? Ou <BR>porque há projetos mais interessantes em outras áreas? Pela
LÓGICA, o <BR>audiovisual deveria ser a área mais atraente. Se não é, há outros
fatores de <BR>convencimento mais fortes que a LÓGICA. Por enquanto, estou
muito
interessado <BR>em saber que fatores são esses.<BR><BR>Um abraço
do<BR>Francis<BR> <BR><BR> <BR>> <BR>> Caro
Santeiro.<BR>> Não sei se você me lê, mas eu leio você. Também me lembro de
um <BR>> roteiro do Glauber, o da Idade da Terra. Só quem sabia valorizar
<BR>> currículos seria capaz de financiar o filme, como nós, na Embrafilme
<BR>> daquele tempo. Não era um roteiro, eram anotações sem qualquer
<BR>>
preocupação de ser julgado por elas. Divergimos, sim, ele queria um <BR>>
orçamento enorme que eu não podia conceder porque ultrapassava de <BR>>
muito
os valores habituais, algo como três ou quatro vezes. Gustavo <BR>>
sugeriu a
ele que apresentasse um orçamento dentro dos parâmetros. A <BR>>
contragosto,
ele apresentou e eu assinei o financiamento. À tarde, <BR>> do mesmo dia,
ele
apresentou um pedido de reajuste segundo o <BR>> orçamento original. Genial,
não? O importante é que o filme foi <BR>> realizado. Hoje estamos todos no
mesmo balaio. Jovens, velhos, <BR>> estreantes, com currículo, sem
currículo,
com cadastro, sem cadastro,<BR>> à mercê de comissões que decidem
nossas vidas com o dinheiro <BR>> público. Como você bem disse, roteiro
não é
filme. Um bom roteiro <BR>> pode dar um mau filme e um mau roteiro idem. No
longa, o que <BR>> acontece é que a ambição é maior e quem é amigo dos
homens, pratica <BR>> tráfico de influência ou sabe como manipular a
contabilidade é que <BR>> se dá bem.<BR>> <BR>> Quando eu quis fazer
experiências mais ousadas, sem dar bola para o <BR>> público, com Selva
Trágica, o fiz às minhas custas, quase perdi meu <BR>> apartamento comprado
com mais de 10 anos de trabalho e fiquei <BR>> trabalhando mais de um ano
para pagar dívidas no banco. 90% dos <BR>> filmes que fiz na vida foram
assim, com recursos ganhos no cinema.<BR>> <BR>> Mas esta mensagem é para
cumprimentar você por sua coragem em dizer <BR>> que a iniciativa de fazer
deve recair sobre quem realmente deseja <BR>> encarar a sério esta nossa
sofrida profissão. Esta é minha posição. <BR>> Fazer primeiro e ser
recompensado depois. Há os que fazem curtas sem <BR>> incentivos. Merecem
todo apoio. E o que é um longa, senão o <BR>> equivalente a três curtas?
Se o
mesmo princípio for adotado longa, <BR>> eles também farão longas..<BR>>
<BR>> Por que estou a tanto tempo sem dirigir um filme? Porque o mercado
<BR>> encolheu. E já que você citou o antigo Instituto Nacional do Cinema
<BR>> INC, cito também. Havia o adicional de renda que premiava os filmes
<BR>> segundo sua aceitação pelo público na bilheteria. Os selecionados
<BR>> por uma comissão segundo o critério de qualidade recebiam um plus
<BR>> independentemente de sua performance na bilheteria. Uma comissão que
<BR>> premia um filme pronto tem pouca margem para fazer besteira ou
<BR>>
privilegiar amigos. Por isso sou a favor de um adicional de renda <BR>>
substancial. É para isso que ele serve - para complementar o <BR>>
mercado. O
mesmo princípio que permite haver aviões sobrevoando a <BR>> Amazônia, de
enormes distâncias, onde a iniciativa privada não <BR>> pagaria seus custos,
se o governo não complementasse o valor dos <BR>> bilhetes aéreos. E eu já
disse que o desenvolvimento do cinema <BR>> brasileiro custaria não mais que
20% dos recursos empregados hoje <BR>> pelo governo na atividade.
Provavelmente, como eu, você será <BR>> criticado como ultrapassado por
sugerir hoje a aplicação de modelos <BR>> de ontem, ou seja, será chamado de
velho... mas lucidez, geralmente, <BR>> não é qualidade dos novos... Mas a
diferença entre o modelo de hoje <BR>> é gritante. Abraços, caro guerreiro
Roberto Farias<BR>> <BR></FONT></BODY></HTML>
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Enviada por: "Roberto Faria" <rf.farias em uol.com.br>
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