assunto: [CINEBRASIL] REGIONALIZAÇÃO PERVERSA

autor: Gabriela Campedelli / email autor: gbic em uol.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Quarta Dezembro 20 11:18:18 BRST 2006


CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Achar que eles emprestavam assim tão facilmente eu não acho
não. Mas, nada comparado com a política de hoje,
principalmente se considerarmos a alta carga tributária. 
Quanto à questão curricular, hoje se eu fosse um banqueiro,
com todo o respeito pela obra do Nelson Pereira dos Santos,
eu não emprestava nenhum tostão para ele. Pode até ser que
eu considerasse dar um pouquinho pela Lei do Audiovisual, a
tal da esmola, mas emprestar dinheiro não emprestava não. 
Começa pelo fato de que os banqueiros estão mais
interessados em inovação que em currículos e, nesse ponto, é
mais fácil que um jovem arrume dinheiro no banco para fazer
um game do que um senhor como o Nelson arrume para fazer um
filme, ainda mais para falar de Brasília. Mas, se o jovem
chegar lá no banco e falar que a grande inspiração do plano
de negócios dele é o Nelson Pereira dos Santos com os 12
filmes que ele fez, dai o banqueiro não empresta nada. Mas,
se ele disser que a empresa dele tá a fim de fazer um
negócio inspirado na Blizzard entertainment dai é capaz do
banqueiro pensar duas vezes.
Isso sem contar que o jovem que não filmou tanto quanto o
Nelson Pereira com certeza também vai fazer um filme dentro
do game, que por sua vez será a plataforma de distribuição
desse filme, embora as pessoas prefiram a parte interativa
dele. Assim sendo ele vai fazer 2 em 1 e, ainda por cima, se
ele for bom mesmo ele vai conseguir fazer uma história épica
que logo um estúdio vai se interessar para exibição em sala
de cinema. 
Agora, cá entre nós, para fazer games ninguém dá desconto no
imposto de renda. 

[]'s
Gabriela



> 
> Gabriela, querida.
> Você acha que naquela época os bancos emprestavam assim
facilmente? Fui o
> primeiro cineasta que conseguiu um empréstimo em banco,
sabia? Tive a sorte
> de encontrar um sujeito chamado José Luiz Magalhães Lins,
um dos sócios do
> Banco Nacional. Fui lá indicado por Fernando Barosa Lima,
um publicitário,
> dono de uma agência chamada Squire, Luiz Carlos Barreto
foi comigo. O
> banqueiro não me emprestou o dinheiro assim, facilmente.
Primeiro pediu meu
> currículo, que consistia de 12 anos de cinema como
profissional, 14 filmes
> como assistente e 4 filmes realizados como diretor. Nesta
altura, eu já
> havia empenhado a casa do meu pai com um agiota, dirigido
e co-produzido
> meus dois primeiros filmes,  e concorrido em Cannes com
Cidade Ameaçada.
> José Luiz pediu para ver. Fiz uma sessão para ele.
Perguntou se eu me
> importava de associar-me com Herbert Richers, na época o
maior produtor de
> cinema e grande distribuidor. José Luiz era e é um
visionário, um mecenas,
> mas não me deu o dinheiro. Chamou o Herbert e perguntou se
ele me avalisava,
> Herbert me conhecia como profissional e disse que sim.
José Luiz disse,
> então, que eu avalisaria o Herbert e ele emprestaria 50%
do nosso orçamento
> para cada um. Fiz o filme e paguei o empréstimo.  Daquele
momento em diante,
> todo o Cinema Novo foi atrás e a maioria dos filmes
daquele movimento foi
> financiado assim. Era a visão de um banqueiro, que tomou
todas as precauções
> possíveis para emprestar o dinheiro.
> 
> Você dirá que isso não existe mais.  Acredito. Mas nem
todos os filmes
> feitos então tinham dinheiro de banco. Muito antes, Nelson
Pereira fez seus
> filmes juntando um dinheirinho, conseguindo algumas latas
de filme, comendo
> sanduíche e dormindo numa pensão com a equipe. Muitos
filmes foram feitos
> assim. Estou certo de que ainda existe gente como José
Luiz.  Os banqueiros
> de hoje também são assim, depende de como você chega neles
e o que você tem
> para oferecer como bagagem e com quem você está associada.
Particularmente,
> lancei vários novos diretores com recursos de minha
empresa. As leis de
> incentivo foram boas por um lado, mas desvituaram a
atividade pelo outro.
> Cada um que consegue recursos é um produtor, sem lastro e
sem experiência. 
> 
> Estou certo de que se não houvesse leis de incentivo, os
que têm vocação e
> determinação encontrariam meios e modos de fazer filmes.
Principalmente se
> na outra ponta houvesse, além do mercado, os incentivos de
um bom adicional
> de renda. os verdadeiros profissionais estariam mais
fortes. Os diretores
> estreantes seriam aqueles que tivessem bagagem e
estreariam do mesmo modo,
> até conseguirem conquistar seu espaço para produzir seus
próprios filmes.
> 
> Beijos
> Roberto
> 
> Caro Roberto:
> 
> Existem várias coisas com as quais eu concordo contigo e com
> o Santeiro. 
> A primeira é do Santeiro profetizando, meio tardiamente, o
> fim da película, mesmo que ele fique dando apoio aos
> curta-metragistas que querem enfiar o custo das cópias em
> película nos exibidores, sendo que uma das soluções para
> exibição de curtas nos cinemas é justamente digital.
> Mas, voltando ao esforço de produzir filmes antigamente sem
> o dinheiro do governo, com empréstimos no banco. Digamos,
> caro Roberto, que existia uma coisa que a juventude
> antigamente tinha que a nossa não tem: crédito. E banco não
> empresta dinheiro a quem não tem crédito. Por exemplo, para
> ter dinheiro emprestado pelo banco vce tem que ter conta
> corrente. Coisa que para ter tem que ter emprego, carteira
> assinada ou alguma comprovação de renda etc. Hoje o mercado
> de trabalho é, na maioria das vezes, informal. Se você
> chegar no banco e dizer, olha só amigo banqueiro, eu não
> consigo comprar um apartamento a prestação para empenhar
> aqui no seu banco porque a Caixa econômica Federal não
> aceita a minha comprovação de renda no mercado informal, mas
> eu tenho certeza de que vce vai achar genial a minha idéia
> de fazer um filme em um mercado de cinema brasileiro falido
> e vai aceitar como garantia a minha genialidade que é
> baseada nos filmes do Glauber. Bom, se ele emprestar o
> dinheiro, eu peço para me contratarem com carteira assinada
> para que eu possa fazer o mesmo. Mas, com toda certeza a
> culpa não é da vontade da juventude já que tudo o que a
> juventude quer é crédito. 
> 
> Abraços
> Gabriela  
> 
> 
> 
> > Caro Santeiro.
> > Não sei se você me lê, mas eu leio você. Também me lembro
> de um roteiro do 
> > Glauber, o da Idade da Terra. Só quem sabia valorizar
> currículos seria capaz 
> > de financiar o filme, como nós, na Embrafilme daquele
> tempo. Não era um 
> > roteiro, eram anotações sem qualquer preocupação de ser
> julgado por elas. 
> > Divergimos, sim, ele queria um orçamento enorme que eu não
> podia conceder 
> > porque ultrapassava de muito os valores habituais, algo
> como três ou quatro 
> > vezes. Gustavo sugeriu a ele que apresentasse um orçamento
> dentro dos 
> > parâmetros. A contragosto, ele apresentou e eu assinei o
> financiamento. À 
> > tarde, do mesmo dia, ele apresentou um pedido de reajuste
> segundo o 
> > orçamento original. Genial, não? O importante é que o
> filme foi realizado. 
> > Hoje estamos todos no mesmo balaio. Jovens, velhos,
> estreantes, com 
> > currículo, sem currículo, com cadastro, sem cadastro, à
> mercê de comissões 
> > que decidem nossas vidas com o dinheiro público. Como você
> bem disse, 
> > roteiro não é filme. Um bom roteiro pode dar um mau filme
> e um mau roteiro 
> > idem. No longa, o que acontece é que a ambição é maior e
> quem é amigo dos 
> > homens, pratica tráfico de influência ou sabe como
> manipular a contabilidade 
> > é que se dá bem.
> > 
> > Quando eu quis fazer experiências mais ousadas, sem dar
> bola para o público, 
> > com Selva Trágica, o fiz às minhas custas, quase perdi meu
> apartamento 
> > comprado com mais de 10 anos de trabalho e fiquei
> trabalhando mais de um ano 
> > para pagar dívidas no banco. 90% dos filmes que fiz na
> vida foram assim, com 
> > recursos ganhos no cinema.
> > 
> > Mas esta mensagem é para cumprimentar você por sua coragem
> em dizer que a 
> > iniciativa de fazer deve recair sobre quem realmente
> deseja encarar a sério 
> > esta nossa sofrida profissão.  Esta é minha posição. Fazer
> primeiro e ser 
> > recompensado depois. Há os que fazem curtas sem
> incentivos. Merecem todo 
> > apoio. E o que é um longa, senão o equivalente a três
> curtas? Se o mesmo 
> > princípio for adotado longa, eles também farão longas..
> > 
> > Por que estou a tanto tempo sem dirigir um filme? Porque o
> mercado encolheu. 
> > E já que você citou o antigo Instituto Nacional do Cinema
> INC, cito também. 
> > Havia o adicional de renda que premiava os filmes segundo
> sua aceitação pelo 
> > público na bilheteria. Os selecionados por uma comissão
> segundo o critério 
> > de qualidade recebiam um plus independentemente de sua
> performance na 
> > bilheteria. Uma comissão que premia um filme pronto tem
> pouca margem para 
> > fazer besteira ou privilegiar amigos. Por isso sou a favor
> de um adicional 
> > de renda substancial. É para isso que ele serve - para
> complementar o 
> > mercado. O mesmo princípio que permite haver aviões
> sobrevoando a Amazônia, 
> > de enormes distâncias, onde a iniciativa privada não
> pagaria seus custos, se 
> > o governo não complementasse o valor dos bilhetes aéreos.
> E eu já disse que 
> > o desenvolvimento do cinema brasileiro custaria não mais
> que 20% dos 
> > recursos empregados hoje pelo governo na atividade.
> Provavelmente, como eu, 
> > você será criticado como ultrapassado por sugerir hoje a
> aplicação de 
> > modelos de ontem, ou seja, será chamado de velho... mas
> lucidez, geralmente, 
> > não é qualidade dos novos... Mas a diferença entre o
> modelo de hoje é 
> > gritante.
> > Abraços, caro guerreiro
> > Roberto Farias
> > 
> > Repito abaixo sua mensagem:
> > 
> > "Como foi feito Terra Em Transe? Não haviam recursos
> incentivados. O Estado 
> > não se metia na produção. A recompensa vinha depois,
> premiando o esforço de 
> > quem nasceu para isso e não aos que garimpam facilidades
> nas diversas áreas 
> > de atividade.
> > 
> >  Meus caros a questão não é geopolítica. Não há pessoa,
> entidade, juri ou 
> > critério que tenha o direito de excluir 780 projetos. Quem
> não merece? Só 
> > quem não for brasileiro ou não pagar imposto de renda. Os
> demais outros são 
> > contribuintes e os recursos são publicos, somatório destas
> contribuições. É 
> > precioso e preciso repensar o sistema. Depois
> > chorar, não vale. Acabou chorare. Chororô, xô!
> > 
> > A coisa mais inteligente no genero que eu saiba, além da
> lei do curta 
> > universalmente aplicada, é um velho mecanismo do antigo
> Instituto Nacional 
> > do Cinema Educativo - INCE, que era a "compra de direitos
> de contratipagem 
> > para exibição não-comercial". Xôu de bola. Em nossos
> tempos digitais 
> > bastaria o Minc adquirir tais direitos de uma matriz
> digital conveniente, 
> > digamos, uma beta analógica que é o que se usa amplamente.
> Baixo custo de 
> > produção, remuneração equânime, suporte conveniente para
> > exibição digital. A película acabou. Azar da Kodak.
> > 
> > Dirão voces, e quem banca a produção, oras, é o produtor,
> em nosso caso, o 
> > realizador. E os estreantes, pois é, terão a chance de
> estrear, bancando-se 
> > como o não estreante. Afinal ao estreante é preciso
> primeiro estrear antes 
> > de estrelar. Nunca vi ninguem dar uma ponte para um
> engenheiro estreante 
> > estrear, nem uma operação de coração para um cardiologista
> neófito. Há que 
> > ralar cambada, mostrar serviço, dizer a que veio, fazer
> política para 
> > ampliar as condições de produção e exibição de nossos
filmes.
> > 
> > Nunca vi e nem ouvi falar de filme em papel. Roteiro bom
> se é que isto 
> > existe é apenas uma peça literária, manda pra ver se ganha
> o Nobel, não 
> > garante nem sugere bom filme, o mau tambem. Jamais me
> esquecerei do roteiro 
> > de "Terra em Transe", voces nem imaginam o que era. E
> tambem não me 
> > esquecerei que o Niemeyer ganhou o concurso para a
> construção de Brasília 
> > com duas fôlhas de papel manteiga a nanquim.
> > 
> > Boa briga, e deixa o Esporte em paz. O problema é a
> Rouanet garantir o caixa 
> > dois das estatais e fundações privadas e subsidiar a
> cultura importada. O 
> > nosso Esporte o amador tambem é nosso, dá pra partilhar
> com ele, o que não 
> > dá é pra sustentar os ômi e os seus puteiros de luxo.
> Salve espíritos.
> > Sergio Santeiro."
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