assunto: [CINEBRASIL] REGIONALIZAÇÃO PERVERSA

autor: Gabriela Campedelli / email autor: gbic em uol.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Sábado Dezembro 23 16:05:00 BRST 2006


CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Caro Luis:

Que bom que vce voltou a escrever aqui na lista. Obrigada
pelo esclarecimento. De qualquer maneira, o crédito que os
bancos desejam dar ao cinema nacional é muit inferior à
demanda do mercado produtor. No mais, sou super a favor que
exista um esquema como o que vce descreveu, apenas creio que
o único banco que será capaz de topar uma parada dessas é o
BNDES. Eu duvido que banqueiros queiram fazer isso porque
eles acreditam nesse investimento. Como vce bem colocou, é
melhor fazer filmes que tenham em vista o público. Não é o
caso da maioria dos filmes nacionais. Ou, se eles tem em
vista o público, o desconhecimento desse público parece ser
algo gritante uma vez que muitos dos filmes carecem mesmo é
de platéia, já que dinheiro neles foi investido senão não
teriam ido para as telas. E muitas das reclamações dos
cineastas não tem a menor ressonância na realidade. Citemos
alguns exemplos: faltam números de cópia e não existe
dinheiro para o marketing. Vejamos, eu não sei porque faltam
cópias aos filmes que são fracassos de bilheteria se uma das
cópias consegue encher uma das salas. Já a questão do
marketing, eles normalmente fazer uma comparação rídicula
com o budget de um filme americano. Acontece que o budget do
marketing de um filme americano compreende praças comerciais
no mundo todo, o do filme nacional deve compreender as
capitais brasileiras quando muito. Ou seja, budgets
incomparáveis. Pode até ser que a verba destinada para
lançamento de um blockbuster no Brasil seja superior à verba
destinada ao lançamento de um filme brasileiro. Vamos a
outra comparação: não tem 24 blockbusters sendo lançados por
ano. Quer dizer, a concorrência do tal do blockbuster é
eventual. Isso sem contar que a maioria dos filmes
brasileiros tem mais chance de ganhar mídia espontânea do
que muitos dos filmes americanos,com exceção do blockbuster. 
Bom, dai vce é banqueiro e pega um projeto de cinema
brasileiro e sabe que o cara tem aquela visão distorcida do
público, uma visão meio bizarra do mercado e, por mais que
se criem condições especiais, vce imagina que um banqueiro
vai te emprestar assim uns milhões de reais....Bem, pense
duas vezes. 

Feliz Natal
Gabriela



> 
> Gabriela,
> 
> O crédito que havia e que, acredito, o Roberto esteja se
referindo não é o 
> crédito usual existente nos bancos. O cinema brasileiro já
teve sistemas de 
> incentivo diferentes do atual.. Hoje temos leis onde o
dinheiro aplicado no 
> cinema é praticamente "a fundo perdido". Já houve época em
que havia um 
> sistema diferente. O cineasta obtinha o recurso financeiro
mas, ao contrário 
> do sistema atual, tinha que devolve-lo e com juros. Mas
eram  empréstimos 
> criados especialmente para a produção de filmes com alguns
diferenciais 
> quanto a carência, juros e exigências de garantia.
> 
> Por mais que as condições de emprestimo ao cinema, tenham
sido ou um dia 
> voltem a ser condições especiais e privilegiadas, é sempre
melhor o 
> cineasta, mesmo recebendo incentivos, já começar a
trabalhar tendo em vista 
> o mercado consumidor, colocando para si mesmo a meta de
conquistar o 
> público, ter um compromisso com a demanda do produto que é
o seu filme.
> 
> As condições para crédito e garantias de um empréstimo
específico para 
> cinema tem que ser especiais e diferentes daquelas usuais
no mercado 
> financeiro. Por outro lado, o cinema brasileiro e os
cineastas já tiveram 
> uma segurança maior e uma garantia maior de que seus
filmes seriam 
> distribuidos e exibidos. Isso dava maior segurnaça tanto a
quem concedia o 
> empréstimo quanto a quem produzia os filmes.
> 
> abraço
> Luís Bacchi
> 
> 
> 
> ----- Original Message ----- 
> From: "Gabriela Campedelli" <gbic em uol.com.br>
> To: <cinemabrasil em cinemabrasil.org.br>
> Sent: Saturday, December 16, 2006 10:01 AM
> Subject: Re: [CINEBRASIL] REGIONALIZAÇÃO PERVERSA
> 
> 
> 
> 
> 
> Caro Roberto:
> 
> Existem várias coisas com as quais eu concordo contigo e com
> o Santeiro.
> A primeira é do Santeiro profetizando, meio tardiamente, o
> fim da película, mesmo que ele fique dando apoio aos
> curta-metragistas que querem enfiar o custo das cópias em
> película nos exibidores, sendo que uma das soluções para
> exibição de curtas nos cinemas é justamente digital.
> Mas, voltando ao esforço de produzir filmes antigamente sem
> o dinheiro do governo, com empréstimos no banco. Digamos,
> caro Roberto, que existia uma coisa que a juventude
> antigamente tinha que a nossa não tem: crédito. E banco não
> empresta dinheiro a quem não tem crédito. Por exemplo, para
> ter dinheiro emprestado pelo banco vce tem que ter conta
> corrente. Coisa que para ter tem que ter emprego, carteira
> assinada ou alguma comprovação de renda etc. Hoje o mercado
> de trabalho é, na maioria das vezes, informal. Se você
> chegar no banco e dizer, olha só amigo banqueiro, eu não
> consigo comprar um apartamento a prestação para empenhar
> aqui no seu banco porque a Caixa econômica Federal não
> aceita a minha comprovação de renda no mercado informal, mas
> eu tenho certeza de que vce vai achar genial a minha idéia
> de fazer um filme em um mercado de cinema brasileiro falido
> e vai aceitar como garantia a minha genialidade que é
> baseada nos filmes do Glauber. Bom, se ele emprestar o
> dinheiro, eu peço para me contratarem com carteira assinada
> para que eu possa fazer o mesmo. Mas, com toda certeza a
> culpa não é da vontade da juventude já que tudo o que a
> juventude quer é crédito.
> 
> Abraços
> Gabriela
> 
> 
> 
> > Caro Santeiro.
> > Não sei se você me lê, mas eu leio você. Também me lembro
> de um roteiro do
> > Glauber, o da Idade da Terra. Só quem sabia valorizar
> currículos seria capaz
> > de financiar o filme, como nós, na Embrafilme daquele
> tempo. Não era um
> > roteiro, eram anotações sem qualquer preocupação de ser
> julgado por elas.
> > Divergimos, sim, ele queria um orçamento enorme que eu não
> podia conceder
> > porque ultrapassava de muito os valores habituais, algo
> como três ou quatro
> > vezes. Gustavo sugeriu a ele que apresentasse um orçamento
> dentro dos
> > parâmetros. A contragosto, ele apresentou e eu assinei o
> financiamento. À
> > tarde, do mesmo dia, ele apresentou um pedido de reajuste
> segundo o
> > orçamento original. Genial, não? O importante é que o
> filme foi realizado.
> > Hoje estamos todos no mesmo balaio. Jovens, velhos,
> estreantes, com
> > currículo, sem currículo, com cadastro, sem cadastro, à
> mercê de comissões
> > que decidem nossas vidas com o dinheiro público. Como você
> bem disse,
> > roteiro não é filme. Um bom roteiro pode dar um mau filme
> e um mau roteiro
> > idem. No longa, o que acontece é que a ambição é maior e
> quem é amigo dos
> > homens, pratica tráfico de influência ou sabe como
> manipular a contabilidade
> > é que se dá bem.
> >
> > Quando eu quis fazer experiências mais ousadas, sem dar
> bola para o público,
> > com Selva Trágica, o fiz às minhas custas, quase perdi meu
> apartamento
> > comprado com mais de 10 anos de trabalho e fiquei
> trabalhando mais de um ano
> > para pagar dívidas no banco. 90% dos filmes que fiz na
> vida foram assim, com
> > recursos ganhos no cinema.
> >
> > Mas esta mensagem é para cumprimentar você por sua coragem
> em dizer que a
> > iniciativa de fazer deve recair sobre quem realmente
> deseja encarar a sério
> > esta nossa sofrida profissão.  Esta é minha posição. Fazer
> primeiro e ser
> > recompensado depois. Há os que fazem curtas sem
> incentivos. Merecem todo
> > apoio. E o que é um longa, senão o equivalente a três
> curtas? Se o mesmo
> > princípio for adotado longa, eles também farão longas..
> >
> > Por que estou a tanto tempo sem dirigir um filme? Porque o
> mercado encolheu.
> > E já que você citou o antigo Instituto Nacional do Cinema
> INC, cito também.
> > Havia o adicional de renda que premiava os filmes segundo
> sua aceitação pelo
> > público na bilheteria. Os selecionados por uma comissão
> segundo o critério
> > de qualidade recebiam um plus independentemente de sua
> performance na
> > bilheteria. Uma comissão que premia um filme pronto tem
> pouca margem para
> > fazer besteira ou privilegiar amigos. Por isso sou a favor
> de um adicional
> > de renda substancial. É para isso que ele serve - para
> complementar o
> > mercado. O mesmo princípio que permite haver aviões
> sobrevoando a Amazônia,
> > de enormes distâncias, onde a iniciativa privada não
> pagaria seus custos, se
> > o governo não complementasse o valor dos bilhetes aéreos.
> E eu já disse que
> > o desenvolvimento do cinema brasileiro custaria não mais
> que 20% dos
> > recursos empregados hoje pelo governo na atividade.
> Provavelmente, como eu,
> > você será criticado como ultrapassado por sugerir hoje a
> aplicação de
> > modelos de ontem, ou seja, será chamado de velho... mas
> lucidez, geralmente,
> > não é qualidade dos novos... Mas a diferença entre o
> modelo de hoje é
> > gritante.
> > Abraços, caro guerreiro
> > Roberto Farias
> >
> > Repito abaixo sua mensagem:
> >
> > "Como foi feito Terra Em Transe? Não haviam recursos
> incentivados. O Estado
> > não se metia na produção. A recompensa vinha depois,
> premiando o esforço de
> > quem nasceu para isso e não aos que garimpam facilidades
> nas diversas áreas
> > de atividade.
> >
> >  Meus caros a questão não é geopolítica. Não há pessoa,
> entidade, juri ou
> > critério que tenha o direito de excluir 780 projetos. Quem
> não merece? Só
> > quem não for brasileiro ou não pagar imposto de renda. Os
> demais outros são
> > contribuintes e os recursos são publicos, somatório destas
> contribuições. É
> > precioso e preciso repensar o sistema. Depois
> > chorar, não vale. Acabou chorare. Chororô, xô!
> >
> > A coisa mais inteligente no genero que eu saiba, além da
> lei do curta
> > universalmente aplicada, é um velho mecanismo do antigo
> Instituto Nacional
> > do Cinema Educativo - INCE, que era a "compra de direitos
> de contratipagem
> > para exibição não-comercial". Xôu de bola. Em nossos
> tempos digitais
> > bastaria o Minc adquirir tais direitos de uma matriz
> digital conveniente,
> > digamos, uma beta analógica que é o que se usa amplamente.
> Baixo custo de
> > produção, remuneração equânime, suporte conveniente para
> > exibição digital. A película acabou. Azar da Kodak.
> >
> > Dirão voces, e quem banca a produção, oras, é o produtor,
> em nosso caso, o
> > realizador. E os estreantes, pois é, terão a chance de
> estrear, bancando-se
> > como o não estreante. Afinal ao estreante é preciso
> primeiro estrear antes
> > de estrelar. Nunca vi ninguem dar uma ponte para um
> engenheiro estreante
> > estrear, nem uma operação de coração para um cardiologista
> neófito. Há que
> > ralar cambada, mostrar serviço, dizer a que veio, fazer
> política para
> > ampliar as condições de produção e exibição de nossos
filmes.
> >
> > Nunca vi e nem ouvi falar de filme em papel. Roteiro bom
> se é que isto
> > existe é apenas uma peça literária, manda pra ver se ganha
> o Nobel, não
> > garante nem sugere bom filme, o mau tambem. Jamais me
> esquecerei do roteiro
> > de "Terra em Transe", voces nem imaginam o que era. E
> tambem não me
> > esquecerei que o Niemeyer ganhou o concurso para a
> construção de Brasília
> > com duas fôlhas de papel manteiga a nanquim.
> >
> > Boa briga, e deixa o Esporte em paz. O problema é a
> Rouanet garantir o caixa
> > dois das estatais e fundações privadas e subsidiar a
> cultura importada. O
> > nosso Esporte o amador tambem é nosso, dá pra partilhar
> com ele, o que não
> > dá é pra sustentar os ômi e os seus puteiros de luxo.
> Salve espíritos.
> > Sergio Santeiro."
> >
> >
> >
> >
> > Enviada por: "Roberto Faria" <rf.farias em uol.com.br>
> >
> 
> Enviada por: "Gabriela Campedelli" <gbic em uol.com.br>
> 
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> Enviada por: "Luís Bacchi" <luisbacchi em uol.com.br>
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