
autor: Solange Lima / email autor: sollima5 em hotmail.com
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data: Terça Dezembro 26 12:33:55 BRST 2006
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"Devemos estimular o risco", diz Rangel
Novo presidente da agência reguladora do cinema prevê "ciclo de
desenvolvimento" para o setor e "sinergia" com a TV
Otimismo esbarra em distorções do mercado que, na própria opinião do novo
responsável pela Ancine, "são gritantes"
SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL
O diretor Manoel Rangel, nomeado neste mês presidente da Agência Nacional do
Cinema, diz que "o Brasil tem a chance de ser uma nova Hollywood, guardadas
as proporções e as diferenças do nosso jeito de filmar, de criar, de fazer
cultura".
Mas Rangel sabe que, antes de cumprir a ambição de "satisfazer não só o
mercado interno, mas também oferecer ao mundo algo da diversidade cultural
do Brasil", a indústria nacional deve superar os entraves de um mercado
"concentrado e distorcido", sua condição atual.
É na implementação da lei do Fundo Setorial do Audiovisual (aprovada neste
mês pelo Congresso, com novos mecanismos de fomento ao cinema e mais margem
de ação à Ancine) que Rangel avista "um novo ciclo de desenvolvimento",
deixando para trás a fase da "retomada".
O ciclo que (provavelmente) termina foi o que viu a produção nacional
recuperar vigor, amparada nas leis de renúncia fiscal, mas também abrir mão
do empenho em conquistar público. O resultado é que a participação do filme
brasileiro nas bilheterias está em queda. Desse e de outros paradoxos ele
fala na entrevista a seguir.
FOLHA - O ano de 2006 teve bilheteria insignificante para a maioria dos
filmes brasileiros, além de um número maior de filmes concluídos do que
estreados. Há excesso de produto ou gargalo na distribuição?
MANOEL RANGEL - A produção de filmes brasileira cresceu efetivamente desde
2003. Temos a cada ano cerca de cem títulos sendo filmados; cerca de 80
sendo concluídos e chegamos a dobrar o número de lançamentos. Estamos
satisfeitos com isso? Não, porque há inúmeros problemas cercando a produção
e a exibição desses filmes. São distorções de um ciclo que vivemos desde
1991 [início da Lei Rouanet] até 2003.
Foi um ciclo exitoso de retomada do cinema brasileiro, mas é um período em
que o foco da política cinematográfica foi exclusivamente na produção. Os
filmes realizados debaixo dessa política tiveram que lidar com as distorções
do mercado no Brasil -um parque exibidor muito pequeno, em que os ingressos
acabam sendo muito altos, por causa dessa limitação das salas e de outras
distorções, como a que fez com que o uso da meia entrada não tivesse nenhum
tipo de controle, saltando de 30% para 70%.
FOLHA - A bilheteria do filme brasileiro está em queda desde o recorde de
21% do mercado em 2003. Não é indício de desinteresse do público pela
produção nacional?
RANGEL - 2003 é um ponto fora da curva. Deve ser visto como um ano
excepcional. O "market share" [parcela do mercado] do filme brasileiro
cresceu ao longo desses anos, em relação a 2002 e a toda a década anterior.
De 1990 a 2002 nunca ultrapassamos o patamar de 10%, que foi ultrapassado
extraordinariamente em 2003, batendo nos 22%. Fizemos 14,4% em 2004; 12% em
2005 e estamos fechando 2006 com 12%. Houve diminuição de público neste ano,
não só do filme brasileiro, mas também do estrangeiro.
Tivemos um grande sucesso nacional ["Se Eu Fosse Você", público de 3,6
milhões]; dois ou três filmes com resultado interessante e um grande número
com resultado muito limitado. Uma parte dessas questões tem a ver com o
perfil dos filmes. É natural que documentários tenham um público menor.
Há outro conjunto de filmes que poderiam ter um resultado melhor, se
tivessem lançamentos mais robustos, se o circuito exibidor estivesse mais
ramificado em segmentos da população diferentes do A e B e se esses filmes
tivessem contado com um planejamento mais intenso da idéia de que são uma
obra de arte e também um produto que será comercializado.
FOLHA - Essa é uma defesa da idéia de que os filmes tenham necessariamente
associação com uma distribuidora antes de serem filmados?
RANGEL - Não seria taxativo em dizer associação anterior com distribuidora,
mas diria um pensamento na fase de produção fortemente marcado pela idéia do
lançamento comercial.
FOLHA - Como exigir compromisso comercial dos filmes brasileiros, se eles se
pagam antes do lançamento, já que têm a produção inteiramente subsidiada
pelas leis de incentivo?
RANGEL - Precisamos estimular a disposição de correr riscos nessa atividade.
Nenhuma produtora, quando se lança a realizar um filme, tira de seu
horizonte a possibilidade de obter lucro, independentemente de ter um
subsídio integral da realização da obra.
Mas é evidente que a mecânica dos incentivos fiscais, da forma como foi
concebida nos últimos anos, não estimulou um planejamento obsessivo desse
retorno, não colocou isso como uma precondição.
O fato de não haver uma demanda pelo produto brasileiro no conjunto dos
segmentos de mercado dificulta [o lucro]. Nenhum filme se paga só no mercado
de salas, em nenhum lugar, nem nos EUA. Ter todos os segmentos comprando e
pagando o preço justo por um produto brasileiro é importante para a obtenção
do retorno.
Com isso não faço uma absolutização do resultado econômico. Acho plenamente
justificável que alguns filmes se realizem mais como aposta autoral do que
comercial. Uma cinematografia precisa de filmes que levem à descoberta de
novos espaços da sensibilidade, para reforçá-la como um todo.
FOLHA - Diante da tendência de queda de público nas salas, com migração para
o mercado de vídeo doméstico, não é anacrônico defender a expansão do parque
exibidor?
RANGEL - Não, porque, embora haja no contexto internacional uma competição
cada vez mais intensa entre o mercado de vídeo doméstico e o de salas de
cinema, continua havendo uma valorização importante do mercado de salas.
O déficit que temos no Brasil permite dizer com segurança que estamos muito
longe do ponto ótimo do parque exibidor. Temos uma sala de cinema para cada
90 mil habitantes. A Argentina tem uma sala para cada cerca de 40 mil
habitantes; o México, uma sala para cada cerca de 35 mil habitantes.
Portanto temos espaço para expansão do nosso mercado de salas. É preciso que
a gente tenha no Estado brasileiro essa preocupação, o que significa ter
políticas de financiamento.
FOLHA - O sr. disse que nenhum filme se paga só no mercado de salas. A
ausência do filme nacional da TV não é o grande nó no caso brasileiro?
RANGEL - Esse é um importante nó do mercado. Há outros, como o fato de os
números do mercado de vídeo e DVD ainda serem pouco conhecidos dos
produtores e dos agentes econômicos. Temos a programação de TV por
assinatura como um mercado importante e também não devidamente
potencializado para o filme nacional.
Eu diria que os problemas no mercado de salas, que são gritantes, são apenas
a ponta do iceberg. Temos problemas no conjunto dos outros segmentos do
mercado. Por isso a Ancine tem uma competência de fomento, outra de
regulação e uma terceira, ainda mais radicalmente importante, que é de
desenvolvimento econômico.
FOLHA - Se a oposição das TVs abertas ao projeto da Ancinav pode ser lida
como uma recusa ao debate sobre o lugar do filme brasileiro nesse segmento,
como a Ancine ainda pretende intervir nessa questão?
RANGEL - A decisão do presidente Lula naquele momento, de destrinchar o
assunto e decidir que não era oportuno criar uma agência reguladora de todo
o audiovisual [a Ancinav] antes de criar um marco regulatório relativo à
comunicação social eletrônica foi acertada, no sentido de que responsabiliza
a sociedade brasileira por encontrar os caminhos de lidar com as questões da
comunicação eletrônica no Brasil.
Mas o presidente tomou também a decisão de dar curso a uma parte importante
do projeto da Ancinav, com as ações de desenvolvimento do cinema e do
audiovisual e o reforço da Ancine. O presidente deu à Ancine e ao Ministério
da Cultura instrumentos para, por outros caminhos, forçar o processo de
parceria entre o cinema e a TV.
Um exemplo disso é a criação do Fundo Setorial do Audiovisual
[recém-aprovado no Congresso, que aguarda sanção presidencial]. O artigo 3º
A dessa lei vai permitir que as televisões e as programadoras de TV por
assinatura participem fortemente da produção de filmes e de obras
audiovisuais de produção independente para a TV. Esse artigo vai mudar a
mentalidade dos executivos de TV e dos produtores independentes, caminhando
para uma sinergia.
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