assunto: [CINEBRASIL] Games...

autor: Gabriela Campedelli / email autor: gbic em uol.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Domingo Dezembro 31 12:25:21 BRST 2006


CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Luis:

É isso ai. Concordo que existem boas idéias que não foram
colocadas em prática. 
Vce tem razão em muitas das coisas que vce diz. 

Feliz Ano Novo!
Com muitos filmes (e games) brasileiros!

Beijos
Gabriela



> Gabriela,
> 
> Estou de acordo com tudo que você escreveu. Corretíssimo.
Ou pelo menos, 
> pensamos da mesma forma.
> 
> Acho que eu nao soube me expressar bem. Concordo que o
banqueiro tem 
> interesse nos clientes, sejam quais forem, desde que isso
tenha um retorno 
> que ele considere razoavel. E também que o banqueiro não
vai ter interesse 
> em financiar filmes intelectuais que não obtenham este
retorno financeiro. E 
> não acho que isso esteja errado ou que a realidade seja
outra. É assim 
> mesmo. O que eu acho é que, em vista desta realidade,
devemos nos fazer 
> clientes interessantes para o banqueiro. Devemos nos
transformar em clientes 
> rentáveis. Bom para o banqueiro e melhor ainda para nós
porque um filme 
> rentável significa publico assistindo nosso trabalho e
também significa que 
> faremos o próximo em seguida. Então, tem que haver um
cinema brasileiro 
> profissional no mais amplo sentido da palavra
profissional.. Um cinema 
> industrial, real. Onde um técnico de iluminação, por
exemplo, nao faça um 
> longa a cada 2 anos, mas que tenha trabalho nos 12 meses
do ano. E para isso 
> ocorrer o cinema precisa existir de fato. E para o cinema
existir de fato é 
> preciso que o sistema seja implantado, desde o seu início,
com uma estrutura 
> que privilegie a bilheteria. Um cinema que seja feito
partindo da premissa 
> de que um filme será produzido para que seja assistido.
Parece óbvio isso, 
> né ? Mas não é tão óbvio assim. Quando digo para algum
cineasta:
> "Sabe, estive pensando esses dias aí, e andei tendo umas
idéias, algumas 
> meio malucas...uma delas, sabe, é que devíamos talvez,
sabe, sem querer te 
> ofender, a minha idéia era fazer filmes para serem
assistidos...o que vc 
> acha, hein ?"
> Bom a resposta em geral é meio brava, meio irritada:
> "Como assim ?! Você quer que eu agora faça filmes pra
serem assistidos ?! 
> Que maluquice é essa? Você com certeza é um desses
neo-liberais, vendidos, 
> imperialistas, contra a arte...!"
> 
> Então, eu acredito que temos que vencer essa barreira e
esse preconceito de 
> achar que se o filme for visto então isso será obra do
demônio. Bom, sei lá, 
> né Gabriela, eu e você pensamos dum jeito mas muita gente
pensa de 
> outro....sei lá....Mas eu acho que na medida em que
fizessemos filmes para 
> serem vistos, ou seja, na medida em que produzisemos
filmes só pra depois 
> juntar uma pessoas e projeta-los, então aí sim, fariamos
alguma bilheteria, 
> depois muitos filmes e mais tarde, quando produzissemos um
quantidade 
> razoavel de filmes então uma porcentagem tal de nossa
produção pudesse ser 
> destinada a filmes experimentais, "filmes difíceis",
filmes de vanguarda etc 
> que até poderiam (ou não) ter boas bilheterias. E, com um
sistema brasileiro 
> de produção e exibição de filmes nacionais, diversos
outros segmentos se 
> aliariam ao cinema e ao mesmo que investiriam nele, também
obteriam 
> rendimentos deste mesmo cinema. Os bancos poderiam lucrar
com seus 
> financiamentos, os industriais colocando seus produtos a
mostra, o governo 
> arrecadando mais impostos, o mercado de trabalho obtendo
mais empregos e até 
> artistas produzindo mais arte.
> 
> Tudo muito bonito. Mas tem um porém. Pra isso acontecer
era bom já ir 
> botando a mão na enxada. Não faria muito mal que o sistema
de subsidios e 
> incentivos já indicasse ao produtor que seria bom já ir,
por exemplo, 
> procurando o mercado. O mecanismo de incentivo priorizaria
quem produz para 
> o mercado. A idéia de adicional de bilheteria, por
exemplo, vai nessa 
> direção porque inclusive obriga o produtor a arriscar pelo
menos em parte o 
> dele também. Mais isso, menos isso, não importa.O que
importa é que a 
> legislação de incentivo indique e de certa forma obrigue o
produtor a buscar 
> o mercado.  E nada disso adiantará, se o mesmo governo não
construir de 
> alguma forma e simultâneamente uma estrutura de
distribuição e exibição 
> desta produção nacional. Porque mesmo se o produtor
arriscar também o seu 
> capital e produzir apenas o que o mercado deseja, isso
também irá por agua 
> abaixo se não existir uma exibição que promova e venda
este filme nacional.
> 
> Agora citando o aspecto que você abordou dos cineastas
mais velhos. Havendo 
> uma produção subsidiada ou incentivada priorizando a
realização de filmes 
> para o mercado e uma exibição competente, provavelmente o
cineasta mais 
> competente será o mais valorizado. Então, o cineasta mais
antigo, quase sem 
> sombra de dúvida, será mais valorizado. Não por ser o mais
antigo mas por 
> ser o mais competente. E, é bom lembrar, mesmo que não
fosse o mais 
> competente, deveria ser o mais valorizado. O profissional
mais experiente, 
> que já passou por ciclos riquissimos do cinema brasileiro
tem um valor 
> inestimavel. Tem primeiro um valor ao dirigir agora filmes
de qualidade. E 
> tem um outro valor, muitíssimo maior que só ele tem: ao
dirigir um filme, 
> este cineasta experiente estará passando todo seu
conhecimento a novos 
> técnicos e novas gerações. Então, o cineasta mais
experiente deveria ser 
> disputado a tapa pra trabalhar no mercado. Senão pela
produção de novos 
> filmes, pela sua condição única e rara de transmitir um
conhecimento que 
> está aos poucos se perdendo. Pegue um filme da Vera Cruz,
da Atlantida. 
> Dizem que nos anos 70 o som do cinema era ruim e que agora
o som tem 
> qualidade e que ja foi até indicado ao Oscar. Tudo bem,
concordo em parte. 
> Mas pegue um filme dos anos 50 e 60 e você verá filmes tão
perfeitos 
> tecnicamente quanto os atuais em termos de som (claro, sem
Dolby e etc) e em 
> diveros outros aspectos como montagem, luz etc.. Ou seja,
quem trabalhou 
> naqueles ciclos que foram tecnica e artisticamente
riquissimos podem 
> transmitir não apenas um conhecimento, mas também um
entusiasmo, um élan, 
> quase que um "dom" aos novos e jovens cineastas. Mas, como
ja disse, havendo 
> uma produção e exibição com vistas ao mercado consumidor,
nem mesmo 
> precisaria de um incentivo paralelo aos cineastas mais
experientes. Eles 
> sendo, como são, muito competentes, ja seriam disputados
pela sua 
> competencia em fazer novos e bons filmes que atenderiam ao
mercado. E ao 
> mesmo tempo seriam muito importantes na formação não
apenas técnica mas 
> artística de toda uma nova geração. E isso não tem preço.
> 
> Quanto ao teatro, eu dizia que o teatro em si mudou e ao
mesmo tempo não 
> mudou. E detalhei um pouco alguns aspectos. Não analisei
sob o ponto de 
> vista específico de bilheteria. Você diz que o teatro foi
enfraquecido pelo 
> cinema. Eu teria algumas ponderações a fazer a este
respeito, mas não tenho 
> os dados todos em mãos e não teria muita certeza do que eu
estaria 
> afirmando. prefiro não discordar pra nao falar besteira.
> 
> Quanto aos games eu posso opinar, mas não recomendo que
ninguém leve a serio 
> o que digo sobre games. Entre a minha opinião e a sua,
prefiro a sua que tem 
> mais conhecimento do assunto. Mas como sou muito metido me
arrisco a dizer 
> algumas coisas. A distribuição do cinema, em breve, será
também facílima e 
> de custo baixissimo. A previsão é de que os filmes sejam
transmitidos para 
> as salas de cinema via satélite. E que o video-home seja
entregue nas 
> residências carregando arquivos na internet. Então não
vejo grande diferença 
> do cinema e do game neste aspecto. Agora, você citou que o
game tem o 
> aspecto da interatividade. Este aspecto é imbativel. Se
ele for decisivo, o 
> game ganha todas, não sobra pra mais ninguem, nem pra
teatro, nem pra cinema 
> e nem pra tv. Se a interatividade for essencial então nos
cineastas teremos 
> que partir para o game (...era o que me faltava...rsss) ou
então morreremos 
> na praia. Se hoje a Tv perdeu espaço para a internet,
amanha o cinema 
> perderá espaço para o game. Mas apenas em parte. Acredito
firmemente que o 
> entretenimento em que o consumidor não interage continuará
a predominar. 
> Caso a interatividade fosse algo que despertasse tanto o
interesse ela ja 
> teria sido mais amplamente utilizada até quando não havia
cinema. O teatro, 
> por exemplo, pode ser interativo. Mas essa moda nunca
pegou ( e nao foi por 
> falta de tentar). Mas admito por outro lado que o game se
presta mais a 
> interatividade pois, ao contrário do teatro, o game tem
uma tecnologia mais 
> adequada ao processo da interatividade.
> 
> Quando olho o que ocorre hoje nos fotologs, blogs e orkuts
da vida me parece 
> inevitavel que os games vão mesmo se tornar cada vez mais
uma realidade. E 
> eles vão sem duvida abocanhar em maior ou menor parte o
mercado de 
> audiovisual. E, como você disse, falta uma política para
que este mercado 
> aconteça de forma segura. E, principalmente, para proteger
o produto 
> nacional.
> 
> Ou seja,  pra variar, Gabriela, usamos palavras diferentes
mas concordamos 
> em quase tudo.
> 
> abraços
> Luís Bacchi
> 
> 
> 
> 
> ------------------------------------
> 
> Gabriela escreveu:
> 
> Luis, ainda tendo artistas assim outros assado, os
banqueiros não vão
> investir no cinema nacional simplesmente porque eles não
acreditam
> que cinema nacional seja um bom negócio, e não porque eles são
> insensíveis.
> Acho que para você entender a cabeça de um banqueiro
imagine que um
> banqueiro tem clientes. E o dinheiro que ele reserva para
> investimentos de alta monta é dos clientes dele. Se ele
investe em um
> filme pretensiosamente intelectual, cujos fatores são em
sua maioria
> subjetivos e a análise da concorrência é distorcida e ele
perder
> dinheiro, ele está perdendo o dinheiro dos clientes dele.
Os clientes
> de um banqueiro podem ser as mais diversas pessoas. Podem, por
> exemplo, ser aposentados. Bom, dai estamos falando de
dinheiro que
> poderia servir a diversas coisas, conforme for a
possibilidade do
> banqueiro. É muito realista. É. Sobra o capital de risco.
O capital
> de risco é em geral uma parte restrita do orçamento de um
banco,
> digamos, uns 2% do orçamento total. Ele é um bolo que é
dividido em
> investimentos de risco, dos quais o cinema poderia, se não
fosse
> péssimo negócio no Brasil, fazer parte. Bom, dai vce pega
um sujeito
> que tem uns 90 anos, brilhante cineasta para as elites,
que participa
> de vários festivais internacionais e nota que ele não tem
retorno em
> capital, por mais sensível que o banqueiro for, ele vai
preferir
> investir na última descoberta da empresa de química. Um risco?
> Certamente um risco. Um novo creme de beleza depende de
inúmeros
> fatores. Mas, vejamos, ele tem 2% do orçamento total para
investir.
> Não existe glamour num projeto de cosméticos para beleza.
Vejamos: um
> cientista que dedicou a vida às moléculas, cujas
descobertas ajudaram
> muita gente além daquelas que apenas querem ser belas, cujas
> descobertas ajudaram a salvar vidas. Você ainda acha que os
> banqueiros são insensíveis porque eles apenas não investem
no cinema.
> Eu acho que não. Eles podem visar o lucro, mas eles também
são gente
> e, por serem sensíveis eles talvez não invistam no cinema.
Mas de
> fato não é por falta de sensibilidade, nesse ponto
concordamos.
> Deixa eu te explicar uma coisa: a maioria dos games não é
nada além
> que um filme interativo. É arte, tão arte quanto é o
cinema. E, o
> teatro mudou sim muito. Antes do advento do cinema, da TV, da
> internet, e de todos os meios de entretenimento que
conhecemos, o
> teatro era a escolha de entretenimento. Quando chegou o
cinema, este
> passou a ser a escolha de entretenimento. A TV conseguiu
diminuir um
> pouco o seu status de escolha de entretenimento,
competindo um pouco
> com o cinema pela sua natureza audiovisual, ainda assim, o
cinema, a
> imagem em movimento, os filmes de ficção são claramente a
escolha de
> entretenimento do século XX. Hoje, a escolha de
entretenimento da
> nova geração é o game. E por quê? Porque ele é melhor que
o cinema?
> Certamente não porque em maior ou menor medida aquilo que
é escolhido
> como mainstream no mundo gamer é certamente mais próximo
ao cinema do
> que vce pode imaginar. O que muda então?
> A distribuição. Como assim? Bem, são bibliotecas instaladas em
> terminais de computadores que criam possibilidade de
entrega de
> scripts com histórias, praticamente em tempo real. São
terminais de
> game em sistemas proprietários que permitem a exibição de
DVDs, blu-
> rays e etc. São filmes que são distribuídos juntamente com
os games
> para entretenimento doméstico, em alguns modelos de
negócios para
> entretenimento coletivo etc etc etc. São possibilidades de
criação de
> comunidades para troca entre usuários criando com isso
economia.
> Certamente enquanto arte, o game não é superior ou
inferior a nenhuma
> outra arte, nem mesmo as pessoas que fazem esse ou aquele
game ou
> filme o são. Eu nunca disse isso porque considero no atual
state of
> art que um não é nada além de uma ótica diferente sobre o
outro. O
> que certamente atrai a atenção de um banqueiro é que o
modelo de
> negócios de um é certamente menos arriscado e mais lucrativo e
> artisticamente tão poderoso quanto o outro.
> 
> E essa é a única e principal diferença. E, se o cinema
soubesse, se
> houvesse a menor estratégia que fosse na cabeça daqueles
que sentam
> todos os dias usando seu poder de burocratas de cinema, se
houvesse a
> menor consciência do modelo de negócios que está surgindo,
certamente
> cada um deles não pensaria em outra coisa senão entender
como é que
> faz para entrar no esquema de distribuição dos games. Mas,
aqui no
> Brasil não se pensa assim e a maioria dos sistemas
simplesmente é
> proibida de ser acessada, quando não é taxada e outras
coisitas mais.
> Tudo isso em nome da proteção do mercado para o cinema
nacional. Diga-
> se de passagem, mercado que nem nosso é.
> 
> []'s
> Gabriela
> 
> 
> 
> 
> 
> Enviada por: "Luís Bacchi" <luisbacchi em uol.com.br>

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