
autor: Jose Sette / email autor: jsette_br em yahoo.com.br
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data: Domingo Dezembro 31 19:18:31 BRST 2006
CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Folhetim Elétrico 14
Folhetadas:
FELIZ ANO NOVO. Diálogos para um curta-metragem de fim de ano recolhidos
na mesa do bar "Garota da Gávea", entre três personagens aficionados por
cinema, regados à cachaça mineira. Todos ali estão nervosos com a
proximidade do ano novo. Esse ano, ainda persistente, que não tinha sido
bom. Mulheres lindas e jovens com garrafinhas de cerveja na mão andam
desorientados na calçada, nas ruas e na praça, buscam o tempo perdido. Faz
muito calor. Em uma das mesas do bar está Mário, velho e conhecido diretor
de cinema que falava muito tentando convencer o jovem sentado ao seu lado
das suas idéias. Murilo, ator consagrado e estreante na direção, discordava
e retrucava: - Não é verdade! Tenho lido pela Internet alguns textos
futuristas interessantíssimos de jovens escritores que ainda não foram
publicados e nem por isso estão desesperados, ao contrário, estão fazendo
uma transformação radical na maneira de observar e de contar a vida. O
presente não lhes interessa mais, só o futuro
é moderníssimo. Mário: - Da mesma maneira, olhando para o futuro, os jovens
cineastas precisam também modificar a linguagem, a estética cinematográfica
e a temática dos seus próximos filmes - é preciso olhar mais do que nunca
para dentro. Murilo: - De todos os filmes que tenho assistido, que foram
produzidos nestas últimas décadas, muitos poucos me encantaram. Outros, não
consegui assistir até o fim. Por isso pensei em dirigir o roteiro que
escrevi baseado naquela peça de sucesso. Mário: - Mas ela foi escrita por
você! Murilo: - Afinal, mesmo no cinema, o que me interessa é o texto.
Mário, sarcástico: - Então chega de filmes da carochinha; filmes-novela;
filmes do tipo me enganam que eu gosto; filmes de boutique; filmes de
atores, bons atores, bem empregados na televisão, que querem agora dirigir,
que querem por no telão o seu filme-mi-longa, deixar de ser ator tangido e
se tornar autor consagrado. Ganhar o Oscar e ficar na história. Murilo, você
nunca realizou um filme de
curta-metragem ou mesmo um vídeo de um minuto, sente-se apto a receber esse
incentivo do governo? Lembre-se da chanchada com Oscarito - Esse Milhão é
Meu? Você não precisa disso garoto! Murilo, com a voz macia: - Você sabe que
preciso. O que eu recebi é muito pouco para produzir um bom filme de
mercado. Vou ter que achar um complemento de verba... É muito pouco! Mário:
- É claro! Você quer as grandes produções, muitos milhões, se igualar as
grandes famílias de artistas ricos, aos privilegiados da esquerda, aos que
chegam a acham que os seus filmes-pipoca conquistarão um mercado
inflacionado pelo entretenimento roliudiano. Um garoto bêbado, ali perdido,
como tantos outros, sentado sozinho na mesa ao lado, ouvindo a conversa dos
dois, intervém: - Merda por merda prefiro o cinema americano que pelo menos
me transporta para uma absurda viagem a lugares e culturas de um mundo rico
e boçal de felicidade (aponta o dedo para Murilo) E você, artista burguês,
não me acha certo?
Murilo: - Não sou burguês! Não sou xenófobo como o Mario, mais gosto mais
dos filmes brasileiros que dos filmes americanos e acho que você está
errado. Mário: - Nasci e passei toda a infância vendo desenhos animados
produzidos em roliude e depois, até os 30 anos, os filmes. E hoje, aos 60
anos, não agüento mais rever aqueles filmes, nem ver os atuais, acho tudo um
lixo, e fico pensando que nós brasileiros queremos imitar aquele velho
estilo de vida, mudar de língua e ter todo aquele poder, toda aquela falsa
felicidade burguesa, toda aquela ostentação de uma sociedade hipócrita e
decadente. O garoto bêbado: - Você não vê que tudo não passa de uma grande
mentira, por isso não se tem como imitá-los! Não se pode viver de uma grande
mentira estrangeira, mesmo imposta pelo poder. Mas como falou há tempos
passados um guerreiro: "esses poderes são mentiras que se tornaram verdades
emanadas da boca de um tigre de papel". Murilo: - Então vamos tacar fogo no
tigre? Mário: - O cinema
brasileiro de arte tem que conquistar o seu espaço de exibição para ser
visto por todos aqueles que querem ter visões. Ai está à revolução do
cinema. Murilo: - Meu amigo, para se produzir filmes que possam conquistar o
mercado tem-se primeiro que conquistar a cadeia de exibição e só depois ter
visões futuristas. Mário: - É ai que se esconde o tigre furioso. É preciso
ler e ver no texto por onde se identifica o povo brasileiro, antes de
começar o incêndio. Murilo: - Eu, pra sua informação, estou à procura de uma
boa comédia, de uma nova chanchada, ou então de outros bons textos que
possam justificar o meu novo projeto a ser produzido por qualquer lei de
incentivo. Mário: - Dinheiro do povo, que eu nunca consegui ganhar, porque
nunca me vendi, ao contrário de você que esbanja e ostenta luxo e riqueza, e
se diverte na realização dessas cópias medíocres do que se faz de pior na
América. Chega das panelinhas organizadas em sindicatos e associações de
famintos que aprovam essas
benesses. Esta na hora do cinema brasileiro inteligente. Murilo: - Não sou
boçal, mas não faço cinema como fez o Caetano, por diletantismo, como se
compusesse uma música, escrevesse um livro ou mesmo um poema. Faço cinema
porque quero contar a minha história para milhões de pessoas. Mário: - E
será esse um filme 100% brasileiro? Claro que não! É preciso fazer filmes
brasileiros inteligentes que sejam exibidos, distribuídos e remunerados nos
cinemas, nas escolas, nas universidades de todo país. É a única maneira de
se libertar, de sair do atoleiro incentivado, das seleções hediondas, onde
se encontram muitos produtores e cineastas como você. Murilo: - Você não
pode esquecer que a maioria dos artistas no Brasil não tem carteira de
trabalho assinada, nem aposentadoria. Mário: - Não é novidade, pra que
aposentadoria? Todo mundo sabe que é na produção que alguns privilegiados
ganham o seu ano de vida e depois, no outro ano, outro filme, pouco
importando se os filmes, bons ou
ruins, serão ou não exibidos e se exibidos recuperarão o dinheiro
investido. Só os piores filmes, os que não interessam, retornam o
investimento ao realizador, os melhores não são exibidos. Murilo, acuado,
como se fosse culpado de tudo aquilo: - Eu não roubei nada e nem vivi com
dinheiro algum que não fosse fruto do meu trabalho - sou ator, tenho emprego
e carteira assinada. Mário: - Você é um privilegiado! Já os meus filmes, na
sua maioria com produção independente, sem a tutela de premios e incentivo,
foram sempre exibidos e premiados nos melhores festivais - só que ainda não
sei, como muitos realizadores de cinema independentes, o que significa
mercado de exibição, ou seja, nunca tive retorno financeiro para o meu
trabalho, sou um prisioneiro da minha liberdade. Murilo: - Você não pode
imaginar o quanto de dinheiro que eu estou perdendo? Acabei de vender um
apartamento na Barra. Mais um ano chega ao fim e continuo aqui no Rio de
Janeiro esperando esse maldito
complemento de orçamento. É disso, meu irmão, que você se libertou! Mario:
- Me libertei de quê seu louco? Eu não tenho nada e você tem o capital! Você
realiza e eu olho. Você começando e eu terminando. Pra que esperar mais?
Você tem condições financeiras para produzir o seu filme e o meu também,
duas pequenas produções em digital transferidas depois para 35mm, dois
filmes em lugar de um, o que você acha? Vamos! Por quê não coloca logo a
sua mão no bolso? Onde está a sua solidariedade? Murilo: - Cinema sem
pretensão de mercado, sem se preocupar com as leis do mercado, no mundo do
capital, levaria qualquer um produtor a falência. Eu não quero perder a
minha estabilidade financeira. O que acontece com qualquer empresa que não
tem onde expor a sua mercadoria? Se não tem o mercado, por quê continuar
produzindo? Pra que mentir? O relógio marca os últimos segundos do ano.
Murilo dá um pulo e sai abrupto da mesa quando o jovem bêbado levantando-se
derruba a cachaça Cristalina na
sua camisa e, sem se despedir, desaparece na multidão em festa. O bêbado,
trôpego, diz com a voz exaltada para Mário: - É com uma boa mentira que se
faz um bom filme de sucesso... Existe coisa mais mentirosa que um bom filme
americano? Cinema-verdade, filmes de arte, de vanguarda, já nasce aqui
condenado ao fracasso... Então viva o divertido cinema americano! O povo no
mundo todo adora uma mentira! Viva a mentira! ... Mário levanta-se da mesa e
antes de desaparecer diz para o jovem bêbado: - Salve o ano novo! Viva a
mentira do cinema! O som da cidade aumenta de volume. Alguns carros passam
em disparada no outro lado da praça. Eles são seguidos por carros da policia
com as suas sirenes escandalosas. O carro que vinha na frente bate no poste.
O outro capota espetacularmente. Um dos carros da polícia invade o posto de
gasolina que fica na esquina movimentada do Jóquei derrubando as bombas e a
cobertura de metal. O transito se congestiona. Policiais e bandidos, todos
fora dos
carros, disputam posições de tiro no meio de motoristas apavorados. Uma
grande explosão seguida de um imenso tiroteio cria o pânico nos bares
repletos. Neste cenário de guerra os ruídos das armas de fogo se misturam a
grande queima de fogos na praia de Copacabana. O jovem bêbado, com um
frisante na mão, passa pelo tiroteio tropeçando e gritando pra todos: FELIZ
ANO NOVO!
Roteiro (cont.)
A tensão é grande por todos os ambientes do Palácio onde está aquartelado
o Presidente. As pessoas se movimentam de um lado para o outro sem saber
exatamente o que devem fazer. A confusão é total. No gabinete, o Presidente
e seu Secretário. O Presidente coloca a mão no ombro do Secretário: - Amigo!
O que vamos fazer com essas pessoas que passam apressadas pelos corredores,
salas e gabinete deste palácio, sem saber exatamente o que está acontecendo.
Secretário, descontraído: - Quando o Senhor for para Brasília o Palácio das
Laranjeiras volta a ser habitado pelos fantasmas... O Presidente tira a mão
do ombro do secretário. Está com o semblante cansado e passa a maior parte
do tempo olhando pela janela. Na ante-sala do gabinete está o Almirante.
Está nervoso com o calor, se refresca andando em círculo, em cada volta pára
e fala para o Deputado Marcelo. Almirante: - Tudo isso, deputado, é uma
balbúrdia sem sentido, provinda de um governo surrealista no meio da qual o
Presidente, investido de serena e austera dignidade pessoal, vive duas
angústias crescentes: o receio de que se derrame o sangue do povo brasileiro
em uma guerra civil e, o que é pior, o sentimento inaudito da traição
democrática. O Presidente recebe então a visita do Almirante que já entra no
gabinete falando: - Senhor Presidente, o comício de 13 de março, resultante
da sugestão feita pelo seu líder comunista, alarmou a opinião pública e teve
funda repercussão nos meios militares... O Presidente precisa fazer uma
opção imediata quanto ao apoio do seu Governo: as Forças Armadas ou os
Sindicatos dominados pelos comunistas. O Presidente fica exaltado: -
Almirante, eu não posso tomar decisão sob pressão e contra os que sempre
estiveram ao meu lado... Não sou comunista, sou brasileiro, e estes
desagradáveis acontecimentos, você tem de compreender, são provocados pelos
inimigos das reformas e do governo. Almirante: - Abra o olho, Presidente! Os
Inimigos das reformas são os
empreiteiros da desordem que dominam seu partido; são os sindicalistas que
a exigem a qualquer preço; são os autores intelectuais da intentona de
Brasília e da recente rebelião de marinheiros e fuzileiros navais. Contra o
seu governo está sim a facção sindicalista revolucionária que nos ameaça,
através de hierarquias paralelas, visando o enfraquecimento do princípio da
autoridade e, mediante greves parciais e sucessivas, pretende chegar à greve
geral, equivalente à batalha de aniquilamento, com que conta tomar o poder
político de vossas mãos... Abra o olho, Presidente! Entram no gabinete o
Chefe da Casa Militar e o Ministro da Justiça. O Almirante levanta-se e
caminha para a porta com o olhar fixado no Presidente. O Ministro, vendo o
Almirante sair, diz em voz alta: - Presidente não dê ouvido aos inimigos do
povo. O Governo está forte, como sempre, porque está ao lado do povo e o
povo está com o Governo, como tem demonstrado nas mais diversas
oportunidades... O Ministro
sai também do gabinete e segue com passos firmes para a sala do palácio
onde estão os microfones da rádio. O Almirante nervoso ainda tenta parar o
Ministro, mas é contido por seu auxiliar. O Ministro entra na sala, pega no
microfone da rádio e faz um pronunciamento: - O Governo pode transigir, sem
que isso signifique fraqueza, mas não recua quando está com o povo, porque
as reformas propostas pelo Presidente encarnam o próprio desejo do povo
brasileiro. Um político que estava ali em volta do Ministro diz para uma
mulher elegantemente vestida que estava ao seu lado: - É a revolução pelas
ondas do rádio! O rádio de pilha com que os brasileiros estão nos ouvindo
por todos os rincões de nossa terra! A mulher dá um sorriso maroto de quem
não acredita no que está ouvindo.
(continua no próximo Folhetim)
Enviada por: Jose Sette <jsette_br em yahoo.com.br>
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