
autor: Sergio Santeiro / email autor: santeiro em anaterra.mus.br
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data: Sexta Outubro 6 09:25:51 BRT 2006
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Já agradeci a ela, agradeço agora de público o envio desta matéria do José
Celso, um belo tijolo na construção necessária do nosso pensamento. Ao dele
vou somar o meu, meio de banda. "Todos cantam sua terra, tambem vou cantar a
minha". Ele o faz a partir do seu centro do universo que é o Oficina, não há
como ser diferente. Só pode ser com e do nosso umbigo. Xô, xuá.
É por onde viemos ao mundo, este milagre da encarnação, por onde nos
alimentamos lá na nossa ostra, cada um uno, indivisível, único e
positivamente solitário.
Só nos construimos em coletivo depois de construidos em indivíduo, e na
construção como indivíduos viemos interagindo com os coletivos mãe, pai,
irmãos, familia, pedras, bichos, plantas, mundo.
A tal ponto que fica tudo indissociável, o fato de respirarmos, que é o
básico, inspirarmos absorvendo o mundo, expirarmos devolvendo o mundo e
nosso algo mais, dejeto, carbono, fezes, como quizerem, continentes e
conteúdos formando essa convivência cósmica, milagre da sovrevivência.
Mas a partir de algo, de algum chão, daí a certeza histórica dos sem terra,
daí sua força e sua vitória. Não há como neste mundão de Deus, em quem não
acredito, não se ter um mísero alqueire de seu, até onde sua sombra alcança,
onde plantar-se criar sua ostra. Daí a certeza histórica dos de qualquer
forma excluidos, daí sua força e sua vitória.
Ninguem se engane, inclusão não se pede, não se pleiteia, não se solicita,
inclusão se toma. É um direito inalienável da pessoa humana. Toda pessoa
humana e mesmo antes todo animal e mesmo antes toda força viva inclusive as
marés toma o de que necessita para viver, toma o que é seu.
Não vou me alongar. O que é meu, o que é seu, o que é nosso nesta página,
nesta lista, é o audiovisual e o curta brasileiros. As abds, não se amarrem
em siglas, somos os favelados do cinema brasileiro. As favelas como bem sabe
e bem diz meu velho amigo Manoel Ribeiro não são problema, são solução.
Nossos curtas tambem.
Não entendo porque tanto perrengue, tanta chateação, os dirigentes que
assegurassem o cumprimento da lei, o que é sua obrigação, é seu dever, é sua
função, ganhariam o reino dos céus para centenas de realizadores já vindos e
os do porvir. Até eu tenderia mas não o diria a agradecer-lhes.
Agradecer por que? Por nada, talvez apenas por aliviar o fardo do pêso em
nossas costas de andar por aí sem tela as mãos cheias de calos e latas, as
cabeças cheias de mais filmes por fazer, e fazendo-os.
Juro que não entendo. E não entendo mais ainda porque os atuais dirigentes,
estes que aí estão há quatro anos, são da nossa praia, tambem jogam e
jogaram suas redes no mar. Tambem convivi com a inexplicável incompreensão
de cineastas no poder no passado.
Todos têm as suas magras justificativas e todos garantem e garantiram não os
seus direitos que são obrigatóriamente coletivos mas os seus privilégios que
é a forma mais mesquinha de adonarem-se e serem corrompidos por esse poder
de merda, o poder do não poder, não posso isso, não posso aquilo, não podes
e não podem sequer viver.
Enquanto que aos outros, aos inimigos, que são tambem inimigos deles, a
estes, tudo. Inimigo é inimigo, não se iludam. Mais importante que saber
quem é amigo ou aliado, é saber quem é o inimigo. E ao inimigo, nada, nem
conversa, nem olhar. Amigos e aliados serão os que restarem do teu lado. Os
favelados como tu.
Eu vi "Cinco Vezes Favela" na época. Cinco fatias do que é o cinema
brasileiro, cinco curtas, um sentimento profundo de identidade cósmica foi o
que senti com o que vi, com o como se faz o que vi, e aqui estou.
Não concordo, discordo veementemente da politica publica do cinema
brasileiro. Não vou falar do mundo, do Brasil, nem do Rio de Janeiro. Sei
que todo mundo tem suas justificativas, suas magras justificativas como
sempre. Sei que fizeram uma política de emagrecer e distribuir migalhas,
deixando-nos a todos um pouco mais morrendo de fome para ostentar um
distributivismo míope, um pan-americanismo de intenções, sem tocar uma pedra
sequer no latifundio, no monopolismo, do audiovisual no Brasil.
Estão todos em final de gestão e o que farão antes de voltarem para casa ou
para algum ponto que descolarem no sistema, um ponto protegido de onde verão
a destruição a sua volta que não viram ou fingem não ver porque não param,
se deslocam, inventam a cada dia um novo foco de interesse e tentam
articular teóricamente um besteirol inenarrável.
Mas não verão a destruição porque destruição não haverá, o seu poder não é
poder para tanto, verão a resistencia, lembram-se de como era? a resistencia
na rua, "A Resistencia da Lua".
Será que eu sonho? E eu não sonho. Durmo que nem pedra. Deus não deu-me este
sossego.
Eu antevejo um curta em cada tela, uma câmera em cada mão, o trocado no
bôlso, e mais um curta em cada tela.
Se não fõr amanhã é porque estes caras tão com nada e não lhes restará nem
um átimo da dignidade de que precisarão quando baixarem ao chão de onde
vieram e que não cuidaram em tornar mais propício à inesgotável sementeira
que semeamos por aqui.
Sergio Santeiro.
-----Mensagem original-----
From: Sergio Santeiro santeiro em vm.uff.br
Date: Thu, 5 Oct 2006 22:31:50 -0300
To: cinemabrasil em cinemabrasil.org.br
Subject: [Spam] [CINEBRASIL] Enc: Um texto de algém tão agitado quanto você...
Content-Transfer-Encoding: quoted-printable
----- Mensagem encaminhada de solangelima em gmail.com -----
Data: Thu, 5 Oct 2006 16:22:15 -0300
De: Solange Lima <solangelima em gmail.com>
Resp. ParaSolange Lima <solangelima em gmail.com>
Assunto: Um texto de algém tão agitado quanto você...
Para: santeiro em vm.uff.br
Jornal do Brasil - 30/12/2005 -
Em questão: A política cultural do Governo
Cultura é democracia
José Celso Martinez Corrêa
Democracia não é Mono-Cultura. É Cultura de muitos deuses, de tabus virados
totens, sinfonia sincrônica de muitos bodes cantando. Nisso a pessoa, a
obra, a gestão de Gil é expert e única no mundo atual. Tenho esperanças em
relação a 2006. Diria mais: prefiro votar no Lula. O PT fez um trabalho
extraordinário, embora involuntariamente, revelando o que é a atual
''democracia'' neoliberal brasileira. O erro foi o de ter entrado na
engrenagem do capital financeiro global, corrupta em si. Diante dela, o
mensalão é porta-níquel . Mas por ter penetrado nesta ''democracia''
revelou-a. E mostrou que é necessária uma revolução profunda no aparelho de
Estado brasileiro, somente possível se a cultura brazyleira antropofágica
for valorizada como poder humano político. Não acredito que José Dirceu
tenha feito algo em proveito próprio e sim em interesse partidário. Mas não
há justificativa. É a alienação cultural do aparatchiquismo. Fiz um
discurso, em 2002, dizendo a Lula que o ministro da Cultura era mais
importante que o Banco Central. Acho que acabou acontecendo isso. Gil e
Celso Amorim são os ministros mais fortes de Lula, ainda que não
suficientemente reconhecidos por ele. Mas Lula caiu na armadilha, aceitou a
regra do jogo e, com isso agora ninguém mais é ingênuo. Eu mesmo não
acredito mais em partidos. A França, o país que inventou a República, vive
uma crise enorme, porque culturalmente não sabe como realizar a democracia,
já que mantém uma visão de cultura européia-anglo americana, branca,
positivista, bitolada. Não sabe como abrigar aqueles milhares de franceses
de origem africana, árabe, e têm seus costumes próprios. Daí os incêndios e
a regressão direitista de muitos intelectuais cartesianos franceses.
Falo desses temas porque a democracia não é nunca estável e depende da
contracenação cultural. É do encontro entre uma cultura e seu profundamente
contrário que se produz democracia. E isso é claro no governo Lula e na
gestão de Gil. Lula, mesmo no poder, continuou ligado aos movimentos
sociais. O Oficina é um movimento social. Mesmo que não sejamos incluídos no
mapa oficial dos movimentos da sociedade brasileira. Com 47 anos de
existência, o Oficina continua posseiro da Rua Jaceguai, 520, no Bixiga. O
Estado de São Paulo não confere estatuto legal ao teatro. Eles querem que
tenhamos apenas ''permissão de uso''. Nós fizemos o teatro, nós criamos
aquele espaço. Faz-se de tudo para desprestigiar o lugar. Há 25 anos lutamos
para fazer o Teatro de Estádio e a Universidade Popular Antropofágica em
torno do Oficina e está quase tudo demolido. Nessa área vazia coloca-se uma
questão que é a do Brasil: mais um shopping ou um primeiro espaço público de
cultura, saúde, educação, inclusão social e cibernética da multidão? Ninguém
melhor que Gil para compreender a importância revolucionária para uma rheal
democracia brazyleira, do que pode acontecer nesse quarteirão do Bixiga.
Por esse e por outros motivos, tenho horror à política do PSDB. Nos oito
anos de FHC, não pisei no MinC, que era uma cortina de ferro. Ao lado dos
nomes do governo atual que se envolveram na máquina de corrupção, há gente
boa, dialogando com os movimentos sociais. O MinC é cheio desses quadros. A
começar por Orlando Senna, Fernando Almeida, do Monumenta, Antônio Augusto,
do Iphan etc. Há diálogo com a sociedade e a produção cultural. Sou contra a
regressão. Regredir ao PSDB é regredir à ditadura. À ortodoxia. O Brasil tem
uma extrema direita que radicaliza e que se fantasia de centro. José Serra
entrou na Prefeitura de São Paulo e criou uma rampa anti-mendigo para
impedir que os sem-teto dormissem embaixo dos viadutos. Um povo em plena
ascensão cultural.
A maior parte da gestão de Gilberto Gil foi passada convivendo com o
fantasma do ''contingenciamento'' de verbas. E ele promoveu uma luta enorme
contra a linha do Palocci. Mas este ano, entretanto, acho que, embora seja
por interesse eleitoral, os cofres devem ser abertos. Não faz sentido o
governo não investir. Mas se não deu dinheiro, o MinC nos deu atenção
absoluta. Esteve do nosso lado a todo momento. Conseguiremos lançar nossos
DVDs com apoio da Petrobras em 2006. Mas mais importante é que conseguimos
ir para a Alemanha. E o Bixigão, nosso movimento com crianças, tornou-se
Ponto Cultural, um projeto inteligentíssimo, embrião de novos Cieps do MinC.
Acho excelente o Gil ter invertido a lógica do patrocínio, porque a presença
dele trouxe uma noção de cultura contemporânea, descentralizada,
antropofágica, tropicalista, popular, mas em uma versão avançada. A obra de
Gil é ligada a seu programa como ministro.
Ele está lá por isso. Ele sabe quem precisa do Estado. Ele está no mercado
e sabe que atores de TV que fazem peças descartáveis não precisam de apoio
estatal, que há outros grupos que precisam mais. Tenho a confiança de que em
2006 ele consiga resolver o problema do patrimônio, da conservação. Os
funcionários dessa área ganham miseravelmente e o próprio ministro apoiou
sua greve. Em São Paulo, o patrimônio estadual virou um auxílio à
especulação imobiliária. Recorremos ao Iphan, cujo diretor, Antônio Augusto
Arantes Neto, é um antropólogo genial, o homem que tombou o samba de roda. E
nos socorreu. Está lutando pelo tombamento qualificado, destinado à
realização do projeto de Lina Bardi para o entorno do Oficina. Acusam o MinC
de ceder demais, com no caso Ancinav. Gil defende a Ancinav até em samba
sobre cinema brasileiro. Foi uma questão de jogo político de cintura. No
episódio sobre a contrapartida social, um pequeno grupo reivindicou o
direito de não fornecê-la. O Oficina não gosta desta palavra, mas faz
''contrapartida social'' não por dever moral ou político. Faz porque
trabalhar com meninos de rua é um aprendizado. Chamaram de estalinismo. Mas
ai de quem não fizer contracenar e incluir a exclusão social, ai do artista
que ficar fechado em seu gueto. Vira múmia. Medíocre.
Por isso, digo: estamos absolutamente cansados de ser catequizados. O tema
da campanha de Lula não pode ser o da insistência no discurso da ortodoxia
econômica, mas o da revolução heterodoxa cultural latino universal
americana. Merda.
Enviada por: Sergio Santeiro <santeiro em vm.uff.br>
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