assunto: [CINEBRASIL] Enc: Um texto de algém tão agitado quanto você...

autor: Assunção Hernandes / email autor: assuncao em raizprod.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Sexta Outubro 6 10:05:35 BRT 2006


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Amigos

Tenho uma pergunta que não quer calar:
tenderia  a concordar com  o argumento do José Celso  que face ao que existe 
em nosso mundo, injustiças, desigualdades,  globalizações, etc.,  não há 
problema em que  os  "aloprados" e outros tantos  façam da apropriação 
indébita, do uso indevido dos recursos,  ou traduzindo, do roubo, algo 
"normal" e  condecesder  com esses "crimes".  Mas aí eu me pergunto e 
aproveito para perguntar a todos, a partir dessa posição, não devemos fazer 
um grande movimento nacional para abrir todas as prisões e perdoar   todos 
os crimes  e roubos e assaltos cometidos , pela população,  tendo em vista 
que muito provàvelmente a maioria deles decorre  dos percalços  causados 
pela dinâmica de nossa  sociedade? Não deviíamos educar nossos filhos, 
netos, alunos etc., que   o que vale  é o vale tudo? E que como adversários 
fazem o que não devem,  nossos líderes também o fazem  e portanto é 
absolutamente  aceitável  que todos façamos o mesmo. Porque só  alguns tem 
que ser julgados,  culpados e castigados, só aqueles que não estão 
envolvidos com o governo ou com um partido político, ou que não tem fortunas 
para se defender.

Abrçs


Assunção


> Jornal do Brasil -    30/12/2005 -
>
>
>
> Em questão: A política cultural do Governo
>
>
>
> Cultura é democracia
>
>
>
> José Celso Martinez Corrêa
>
>
>
> Democracia não é Mono-Cultura. É Cultura de muitos deuses, de tabus 
> virados
> totens, sinfonia sincrônica de muitos bodes cantando. Nisso a pessoa, a
> obra, a gestão de Gil é expert e única no mundo atual. Tenho esperanças em
> relação a 2006. Diria mais: prefiro votar no Lula. O PT fez um trabalho
> extraordinário, embora involuntariamente, revelando o que é a atual
> ''democracia'' neoliberal brasileira. O erro foi o de ter entrado na
> engrenagem do capital financeiro global, corrupta em si. Diante dela, o
> mensalão é porta-níquel . Mas por ter penetrado nesta ''democracia''
> revelou-a. E mostrou que é necessária uma revolução profunda no aparelho 
> de
> Estado brasileiro, somente possível se a cultura brazyleira antropofágica
> for valorizada como poder humano político. Não acredito que José Dirceu
> tenha feito algo em proveito próprio e sim em interesse partidário. Mas 
> não
> há justificativa. É a alienação cultural do aparatchiquismo. Fiz um
> discurso, em 2002, dizendo a Lula que o ministro da Cultura era mais
> importante que o Banco Central. Acho que acabou acontecendo isso. Gil e
> Celso Amorim são os ministros mais fortes de Lula, ainda que não
> suficientemente reconhecidos por ele. Mas Lula caiu na armadilha, aceitou 
> a
> regra do jogo e, com isso agora ninguém mais é ingênuo. Eu mesmo não
> acredito mais em partidos. A França, o país que inventou a República, vive
> uma crise enorme, porque culturalmente não sabe como realizar a 
> democracia,
> já que mantém uma visão de cultura européia-anglo americana, branca,
> positivista, bitolada. Não sabe como abrigar aqueles milhares de franceses
> de origem africana, árabe, e têm seus costumes próprios. Daí os incêndios 
> e
> a regressão direitista de muitos intelectuais cartesianos franceses.
>
>
>
> Falo desses temas porque a democracia não é nunca estável e depende da
> contracenação cultural. É do encontro entre uma cultura e seu 
> profundamente
> contrário que se produz democracia. E isso é claro no governo Lula e na
> gestão de Gil. Lula, mesmo no poder, continuou ligado aos movimentos
> sociais. O Oficina é um movimento social. Mesmo que não sejamos incluídos 
> no
> mapa oficial dos movimentos da sociedade brasileira. Com 47 anos de
> existência, o Oficina continua posseiro da Rua Jaceguai, 520, no Bixiga. O
> Estado de São Paulo não confere estatuto legal ao teatro. Eles querem que
> tenhamos apenas ''permissão de uso''. Nós fizemos o teatro, nós criamos
> aquele espaço. Faz-se de tudo para desprestigiar o lugar. Há 25 anos 
> lutamos
> para fazer o Teatro de Estádio e a Universidade Popular Antropofágica em
> torno do Oficina e está quase tudo demolido. Nessa área vazia coloca-se 
> uma
> questão que é a do Brasil: mais um shopping ou um primeiro espaço público 
> de
> cultura, saúde, educação, inclusão social e cibernética da multidão? 
> Ninguém
> melhor que Gil para compreender a importância revolucionária para uma 
> rheal
> democracia brazyleira, do que pode acontecer nesse quarteirão do Bixiga.
>
>
>
> Por esse e por outros motivos, tenho horror à política do PSDB. Nos oito
> anos de FHC, não pisei no MinC, que era uma cortina de ferro. Ao lado dos
> nomes do governo atual que se envolveram na máquina de corrupção, há gente
> boa, dialogando com os movimentos sociais. O MinC é cheio desses quadros. 
> A
> começar por Orlando Senna, Fernando Almeida, do Monumenta, Antônio 
> Augusto,
> do Iphan etc. Há diálogo com a sociedade e a produção cultural. Sou contra 
> a
> regressão. Regredir ao PSDB é regredir à ditadura. À ortodoxia. O Brasil 
> tem
> uma extrema direita que radicaliza e que se fantasia de centro. José Serra
> entrou na Prefeitura de São Paulo e criou uma rampa anti-mendigo para
> impedir que os sem-teto dormissem embaixo dos viadutos. Um povo em plena
> ascensão cultural.
>
>
>
> A maior parte da gestão de Gilberto Gil foi passada convivendo com o
> fantasma do ''contingenciamento'' de verbas. E ele promoveu uma luta 
> enorme
> contra a linha do Palocci. Mas este ano, entretanto, acho que, embora seja
> por interesse eleitoral, os cofres devem ser abertos. Não faz sentido o
> governo não investir. Mas se não deu dinheiro, o MinC nos deu atenção
> absoluta. Esteve do nosso lado a todo momento. Conseguiremos lançar nossos
> DVDs com apoio da Petrobras em 2006. Mas mais importante é que conseguimos
> ir para a Alemanha. E o Bixigão, nosso movimento com crianças, tornou-se
> Ponto Cultural, um projeto inteligentíssimo, embrião de novos Cieps do 
> MinC.
> Acho excelente o Gil ter invertido a lógica do patrocínio, porque a 
> presença
> dele trouxe uma noção de cultura contemporânea, descentralizada,
> antropofágica, tropicalista, popular, mas em uma versão avançada. A obra 
> de
> Gil é ligada a seu programa como ministro.
>
>
>
> Ele está lá por isso. Ele sabe quem precisa do Estado. Ele está no mercado
> e sabe que atores de TV que fazem peças descartáveis não precisam de apoio
> estatal, que há outros grupos que precisam mais. Tenho a confiança de que 
> em
> 2006 ele consiga resolver o problema do patrimônio, da conservação. Os
> funcionários dessa área ganham miseravelmente e o próprio ministro apoiou
> sua greve. Em São Paulo, o patrimônio estadual virou um auxílio à
> especulação imobiliária. Recorremos ao Iphan, cujo diretor, Antônio 
> Augusto
> Arantes Neto, é um antropólogo genial, o homem que tombou o samba de roda. 
> E
> nos socorreu. Está lutando pelo tombamento qualificado, destinado à
> realização do projeto de Lina Bardi para o entorno do Oficina. Acusam o 
> MinC
> de ceder demais, com no caso Ancinav. Gil defende a Ancinav até em samba
> sobre cinema brasileiro. Foi uma questão de jogo político de cintura. No
> episódio sobre a contrapartida social, um pequeno grupo reivindicou o
> direito de não fornecê-la. O Oficina não gosta desta palavra, mas faz
> ''contrapartida social'' não por dever moral ou político. Faz porque
> trabalhar com meninos de rua é um aprendizado. Chamaram de estalinismo. 
> Mas
> ai de quem não fizer contracenar e incluir a exclusão social, ai do 
> artista
> que ficar fechado em seu gueto. Vira múmia. Medíocre.
>
>
>
> Por isso, digo: estamos absolutamente cansados de ser catequizados. O tema
> da campanha de Lula não pode ser o da insistência no discurso da ortodoxia
> econômica, mas o da revolução heterodoxa cultural latino universal
> americana. Merda.
>
>
> Enviada por: Sergio Santeiro <santeiro em vm.uff.br>
>

Enviada por: Assunção Hernandes <assuncao em raizprod.com.br>

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