assunto: [CINEBRASIL] O real crescimento do cinema brasileiro

autor: Orlando Senna / email autor: orlansenna em novanet.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Domingo Outubro 22 15:45:18 BRST 2006


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Revista de Cinema 71 ­ Outubro de 2006
 
 
Entrevista
 
Orlando Senna
O real crescimento do audiovisual brasileiro
 
Por Maria do Rosário Caetano
 
 
O secretário do Audiovisual, cineasta Orlando Senna, expõe nesta entrevista
o investimento do Ministério da Cultura em sua área, nesses quatro anos em
que está à frente da secretaria, e analisa a função desses projetos
culturais dentro de uma formação de identidade nacional. Um panorama das
políticas públicas adotadas no Brasil e em outros paises da América Latina.
O secretário defende a democratização da produção audiovisual que adotou,
tornando prática a chamada inclusão de populações sem acesso às novas
tecnologias transmissoras de conhecimento, como o vídeo e o cinema digital.
³Incorporamos à vida cultural setores que sempre estiveram excluídos², disse
Senna. Os programas são os DOCTV, uma série de documentários que passam na
tv aberta, realizados em todos os Estados brasileiros, e o Revelando os
Brasis, concurso que permite que pessoas simples possam filmar suas
histórias, realizado em parceria com o Canal Futura, que os exibe. Além dos
pontos de exibição de cinema digital, fomento ao cineclubismo como forma de
aumentar o número do circuito exibidor, que cresceu 24,86% nestes últimos
três anos.
Senna explica que esses projetos se inscreveram numa lógica abrangente e
contemporânea que coloca o audiovisual como a mais dinâmica economia da era
pós-industrial. ³Isso significa, em termos de política pública, desenvolver
programas que consolidem o país como um grande produtor audiovisual, capaz
de alimentar os inúmeros circuitos que as inovações tecnológicas colocam à
disposição do mercado², disse.
Anuncia também os resultados dessa política, afirmando que neste momento 170
filmes estão sendo realizados, em distintas etapas de produção, por todo o
pais, e no expressivo crescimento do filme brasileiro no mercado exibidor
interno: em 2002 e anos anteriores a taxa de ocupação do filme brasileiro em
seu próprio mercado estava ao redor de 6% e a taxa média anual de ocupação
agora é de 15,6%.
 
.............
 
Revista de Cinema - Que projetos desenvolvidos  nestes três anos e oito
meses de trabalho de gestão na SAV-MinC deram bons resultados?
 
Orlando Senna ­ Em prol da clareza, vamos dar outra ênfase à pergunta. Para
além da realização de alguns projetos bem sucedidos, esta gestão incluiu o
audiovisual na pauta federal, como tema estratégico de Estado. Construímos
um programa baseado nas discussões históricas do setor, lançado logo nos
primeiros meses do governo Lula, que expressava no próprio nome, ³Brasil: um
país de todas as telas², o conceito central das políticas que foram
implementadas. A democratização e a regionalização das ações e recursos
conduziram os projetos desenvolvidos nas áreas  da produção/criação, difusão
e preservação audiovisuais. Esses projetos se inscreveram numa lógica
abrangente e contemporânea que coloca o audiovisual como a mais dinâmica
economia da era pós-industrial. Isso significa, em termos de política
pública, desenvolver programas que consolidem o País como um grande produtor
audiovisual, capaz de alimentar os inúmeros circuitos que as inovações
tecnológicas colocam à disposição do mercado. E também possibilitar que o
audiovisual, enquanto experiência estética, seja vivenciado pelo maior
número de públicos possíveis.
Estou falando de democracia cultural, que implica na superação do
tradicional foco das políticas públicas, que priorizava os produtores
culturais. Esta gestão (e aqui incluo as ações do MinC em geral) incorporou
à vida cultural setores que sempre estiveram excluídos.
Os resultados dessa política podem ser expressados nos 170 filmes que estão
sendo realizados, em distintas etapas de produção, por todo o país, e no
expressivo crescimento do filme brasileiro no mercador exibidor interno: em
2002 e anos anteriores a taxa de ocupação do filme brasileiro em seu próprio
mercado estava ao redor de 6% e a taxa média anual de ocupação no governo
Lula (2003, 2004, 2005) é de 15,6%. Ou seja, mais do dobro. De 2001 a 2003
foram 30 lançamentos anuais, em 2004 e 2005 foram 51 lançamentos anuais,
neste 2006 deve ultrapassar os 60 lançamentos.
Mas se você me pede que cite especificamente projetos que tiveram bons
resultados, enumero os que se tornaram emblemáticos pela inovação e por suas
capacidades de radicalizarem o conceito central de democratização: o DOCTV,
o Revelando os Brasis, os JogosBR,  o Olhar Brasil, os programas setorias de
exportação de TV e cinema, a ampliação dos editais da Petrobrás e do BNDES.
Devo mencionar a articulação de alguns editais de produção com a
teledifusão, um procedimento que está rendendo bons frutos.
Os investimentos e os resultados destes quatro anos superam o que temos de
referência dos anos anteriores. Somente em produção, foram investidos R$ 592
milhões 350 mil, incluindo recursos diretos e renúncia fiscal. Em sintonia
com a diretriz geral do MinC, a Secretaria do Audiovisual desfez a lógica
separatista de décadas, que era a concentração das ações/recursos na região
sudeste. Hoje existe um equilíbrio na destinação das ações/recursos,
abarcando todas as regiões ‹ e refletindo na qualidade e diversidade da nova
geração de cineastas. Essa democratização foi implementada sem prejuízo do
eixo industrial Rio-São Paulo, que continuou com o atendimento que exige seu
status econômico. Isso foi possível com o aumento dos investimentos estatais
na atividade em 125%, em comparação com a média de investimentos do governo
anterior.
 

Revista de Cinema - A mais ruidosa proposta do MinC-SAV, a criação da
Ancinav, não prosperou.  Restou algo positivo (algum aprendizado) da dura
discussão deste projeto?
 
Senna ­ A necessidade premente do Brasil criar marcos regulatórios modernos
tinha de vir a público, e esse é um resultado positivo da polêmica da
Ancinav.  Quando digo moderno refiro-me à regulação da atividade audiovisual
como um todo, levando em consideração a interdependência de todos seus
segmentos, ou seja, levando em consideração a sua realidade e o avanço dos
paises industrializados no que se refere às legislações abrangentes. Esse
tema, de suma importância para o posicionamento do Brasil nas estratégias de
poder global do século XXI, de suma importância para a nossa economia
interna, era tratado e decidido pelos governos com duas ou três empresas de
radiodifusão e com meia dúzia de grandes produtores de cinema. Ao lançar a
proposta da Ancinav à discussão na sociedade, com consulta pública, debate
entre as diversas áreas do setor e posicionamentos da mídia, o assunto se
revelou em sua inteira importância e complexidade. O Pais ficou sabendo do
que se tratava, da real dimensão do tema.
Sob o ponto de vista prático, o debate público sobre normatização
audiovisual ecoou no governo, o presidente Lula criou, em 2005, um Grupo de
Trabalho Interministerial para elaborar anteprojeto da Lei de Comunicação
Eletrônica de Massas. É um processo que adquire novos contornos com a
implantação da TV Digital e todas suas conseqüências. A nova grandeza da
comunicação audiovisual com o advento da TV Digital, do cinema digital, das
novas tecnologias e mídias de difusão de conteúdos, só poderá se instalar
plenamente no Brasil se forem estabelecidas regras claras, sólidas e
democráticas para seus modelos de negócios e sua relação com a sociedade,
sua responsabilidade social.  O assunto está vivo no governo e no setor e
naturalmente, por força das novas circunstâncias de mercado, voltará ao foco
em pouco tempo. Tudo indica que uma nova etapa de discussão será menos
nervosa e emocional do que a de 2004,  já que terá de convergir sem perda de
tempo para resultados racionais, para um modelo de organização. O debate da
Ancinav amadureceu os setores envolvidos.
 

Revista de Cinema -  Me dê um quadro REALISTA da exibição. Como a encontrou
e como ela está hoje (46 meses depois)? Quantas salas foram criadas para
ajudar na difusão do cinema brasileiro? A Sala Cinemateca-BNDES fica pronta
quando? Ela será ponta de lança de um circuito de difusão do cinema
brasileiro. 

Senna - Houve crescimento de 24,86% do parque exibidor nos últimos quatro
anos, quase todo ele no setor de salas de shoppings. Em dezembro de 2002
existiam 1635 salas no País, agora são 2041. Um circuito digital deu os
primeiros passos e já conta com cerca de 80 salas, com tendência a
crescimento acelerado. O BNDES abriu uma linha de financiamento para
construção de salas que está começando a dar frutos: uma empresa exibidora
em ascensão está utilizando as boas condições desse financiamento para
construir dez salas, para crescer. Testada pelo mercado em mutação, essa
linha de financiamento deve receber ajustes que permitam acesso também a
pequenos empresários interessados em salas digitais de baixo custo. Em ação
direta do governo, via Petrobrás e BNDES, foram restaurados uma dezena de
cinemas tradicionais em várias cidades, e também construidos (como as duas
salas da Cinemateca Brasileira). Também vale mencionar o fomento direto à
distribuição de filmes brasileiros, uma ação conjunta do MinC/Petrobrás, e o
Adicional de Renda restaurado pela Ancine.
A Secretaria do Audiovisual anunciará ainda este ano o projeto Programadora
Brasil, um trabalho conjunto do CTAv-Centro Técnico Audiovisual e da
Cinemateca Brasileira. Depois de três anos de preparação, levantamento de
dados, direitos autorais, análises jurídicas e toda a parafernália
burocrática, entramos na primeira fase de implantação. Trata-se de organizar
o grande circuito dos cineclubes, dos espaços de exibição públicos e
comunitários e agora também dos Pontos de Cultura e garantir filmes para
esse circuito. Daí a Programadora, que organiza e oferece pacotes de
programação a todos esses pontos de exibição, que serão gratuitos ou
cobrarão um ingresso barato.
Uma ação complementar à Programadora já está se concretizando neste momento,
que é o edital para os Pontos de Difusão Digital, a instalação de cem
equipamentos de projeção em todo o Pais. É um edital destinado a cineclubes
e instituições públicas, universidades e escolas inclusive, que possuem
espaços adequados para exibição. O longo processo de montagem desse circuito
alternativo e da Programadora Brasil deve mostrar seus primeiros resultados
em um ano.
Mas me permita dizer que não podemos resumir a questão da exibição às salas
de cinema. Ela envolve outros aspectos, outras mídias e, especialmente, o
estabelecimento de estratégias que incorporem outros organismos públicos nas
ações e no investimento. O programa Olhar Brasil, por exemplo, é
praticamente uma convocação aos órgãos públicos estaduais e municipais para
que desenvolvam  políticas de audiovisual. São onze Estados e/ou municípios
incorporados através desse programa, que é a instalação de núcleos de
produção digital, estabelecendo uma base territorial de
criação/produção/difusão, uma efetiva rede inclusiva de novos protagonistas
regionais. Menciono essa necessidade de parcerias, de união de forças,
porque é impossível criar circuitos de exibição que resolvam o problema da
demanda brasileira se não incluirmos os Estados e, especialmente, os
municípios brasileiros nessa tarefa.
Por outro lado, a Secretaria do Audiovisual deu importância especial à
parceria com a televisão, que é fundamental como se sabe. Grande parte das
editais realizados nesta gestão foram construídos numa perspectiva de
exibição via televisão, programas de produção/teledifusão. A parceria com a
televisão pública se estabeleceu com os programas DOCTV, DOCTV
Ibero-americano, Curta Criança, Curta Animação, Animação Um Minuto, Menino
Muito Maluquinho. A parceria com a televisão privada foi inaugurada com o
Canal Futura, que exibe o Revelando os Brasis, e com o programa Documenta
Brasil, envolvendo o SBT, a ABPITV-Associação Brasileira de Produtores
Independentes de Televisão e a Petrobrás. A distribuição/exibição é a
questão central do cinema brasileiro e da produção independente de tv e, por
isso, foi priorizada pelo governo.
 

Revista de Cinema - Por que não se construiram circuitos na periferia? Os
PONTOS de CULTURA suprem esta lacuna? Em que medida?  Há ESTATÍSTICAS
PALPÁVEIS sobre os pontos de cultura. Questiono: passar filme de graça
adianta alguma coisa? É preciso dar o peixe ou ensinar a pescar?
 
Senna ­ Uma política pública para a distribuição/exibição está em andamento,
como acabo de expor, avançando em ritmo abaixo dos nossos desejos mas em
conformidade com as dificuldades institucionais e financeiras que uma
iniciativa como essa apresenta. São dois movimentos que consideramos
complementares e retroalimentadores: ações referentes à ampliação e ao
fortalecimento do mercado exibidor e ações governamentais diretas, como a
instalação de circuitos culturais alternativos. A periferia está contemplada
basicamente, no atual estágio da política pública para a
distribuição/exibição, nas ações governamentais diretas, já que o mercado
não demonstra interesse por esse público. São ações como a Programadora
Brasil, Olhar Brasil, Pontos de Difusão Digital, Pontos de Cultura.
Um dado importante nessa questão é o cineclube. Fomentamos a retomada do
movimento cineclubista, que reúne hoje cerca de 200 espaços de exibição, boa
parte deles nas periferias das grandes cidades. Quanto aos Pontos de
Cultura: já estão em funcionamento 500, sendo que cem deles têm ênfase em
audiovisual e o MinC trabalha nesse momento em um projeto de rede satelital
interligando esses cem pontos. Tudo faz crer que esse percentual de 20% com
ênfase em audiovisual será estendido pela totalidade, pela ampliação
prevista para dois mil Pontos de Cultura até 2008.
A questão de passar filme de graça, sempre recorrente, é discutida
normalmente de forma reduzida. As pesquisas sobre práticas culturais
realizadas em países como a França e o México ­ que têm certa tradição
nestes estudos ­ indicam que as barreiras para incluir a maioria das
populações na vida cultural não se resumem apenas em obstáculos materiais,
como o preço dos ingressos ou a distância dos centros de cultura, por
exemplo. As barreiras simbólicas são mais determinantes na decisão de um
cidadão escolher ver este ou aquele espetáculo. Exibir filmes gratuitamente
para segmentos da população que não podem pagar ingresso é necessário sim.
Mas não apenas isso, o acesso a um filme tem de ser complementado por ações
como o Revelando os Brasis, que favorece a experiência estética audiovisual
do cidadão comum, cria hábitos, incorpora no imaginário destas pessoas novos
referenciais simbólicos. Adotar o ensino da linguagem audiovisual na escola
formal é outra estratégia, que estamos construindo com o Ministério da
Educação. Aprender cinema na escola como se aprende a ler e escrever o
português, porque, apesar da atualidade ter uma grande diversidade de meios
de formação (especialmente os mídia), a escola ainda é o espaço de
socialização mais rico na formação de hábitos e práticas culturais.


Revista de Cinema - Investir em um projeto como o "Revelando os Brasis" é
pulverizar recursos? Não há excesso de cineastas no país?
 
Senna ­ O objetivo do programa Revelando os Brasis não é formar cineastas. O
conceito central do projeto é o de inclusão audiovisual, disponibilizando as
condições necessárias para que populações excluídas dos processos de
formação, produção e fruição audiovisuais saiam da marginalidade cultural a
que foram relegadas. Os códigos audiovisuais formam, hoje, um dos elementos
definidores das sociabilidades globalizadas, o que exige políticas públicas
que atendam às populações para que elas possam operar socialmentes nas
mesmas condições dos setores que  têm acesso às novas linguagens. Essa
preocupação está presente em muitos países, em termos de políticas públicas.
Nós entendemos que Revelando os Brasis é o programa do MinC que mais
radicaliza os conceitos de inclusão e de democratização culturais, tão caros
à gestão do Ministro Gilberto Gil. Para além do fomento às produções
profissionais, ao mercado profissional, entendemos que os governos devem
construir outras estratégias para assegurar uma inserção mais soberana no
mundo globalizado e Revelando os Brasis caminha nesta perspectiva. Além do
conceito central, o propósito da inserção, outro elemento dá uma identidade
própria ao projeto: o envolvimento de populações de municípios com até 20
mil habitantes. Esse público é formado exatamente pelas populações
tradicionalmente excluídas das políticas públicas. É importante acentuar o
aspecto simbólico que envolve o projeto. Os vídeos resultantes do programa
conformam um acervo de imagem de uma riqueza enorme. São registros do Brasil
profundo, de uma matéria social que normalmente não aparece nas telas do
País.
 
 
Revista de Cinema -  O DOCTV ajudou a aproximar o documentário brasileiro da
TV? A Rede Pública o encarou com seriedade ou apenas como uma "obrigação"?
Por que os docs foram exibidos quase na madrugada?
 
Senna ­ Após quatro anos de exercício, o DOCTV foi capaz de gerar mais de
150 documentários, realizados em todo o País a partir de co-produções de
emissoras públicas, produtores independentes e o governo federal. Foram
geradas mais de três mil horas de programação qualificada para as tvs
públicas brasileiras. O DOCTV  implementou Pólos Estaduais de Produção e
Exibição de documentários, com o apoio da ABD-Associação Brasileira de
Documentaristas, em todos os Estados da federação, articulando organicamente
emissoras e produtores locais. Articulando parcerias não para em evento ou
uma ação pontual, mas para uma atuação permanente, voltada para a
construção de um novo modelo de produção televisiva, capaz de dinamizar
mercados regionais de produção e exibição de documentários. O impacto do
programa sobre as emissoras públicas foi de tal ordem que incidiu
substancialmente na base organizativa do setor, ampliando o quadro de
associados da ABEPEC-Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas
e Culturais, responsável pela boa saúde da Rede Brasil. Emissoras de sete
Estados, antes desarticuladas da Rede, passaram a integrá-la ao gerar e
transmitir conteúdos do DOCTV.
No quadro atual de dificuldade vivido pelas emissoras públicas, com a
estruturação do setor apresentando enormes deficiências, o modelo DOCTV
tornou-se alternativa de produção e matriz simbólica para o desenvolvimento
da rede, gerando paradigmas fundamentais para a qualidade da programação e
para o desenvolvimento da tv pública no Brasil.

A programação do DOCTV é composta por faixa de estréias em rede e por grades
regionais de reprises. A faixa de estréia, definida na primeira edição aos
sábados, às 21 horas, sofreu uma alteração na segunda edição, indo para os
domingos às 23 horas. Esta mudança se deveu a adequação de  programação, a
partir de critérios técnicos de perfil de audiência apresentados pela TV
Cultura de São Paulo, que apontaram como positivo   o deslocamento do
horário. O foco foi buscar a aproximação do DOCTV com um público adulto
interessado, mais disponível neste novo horário. Mas, além desse horário de
estréias nacionais em rede, o programa tem reprises durante a semana em
todos os Estados.
 

Revista de Cinema - Como está o diálogo com a América Hispânica? Por que
ainda não saiu a terceira etapa do Acordo Ancine-INCAA? Por que não
conseguimos dialogar com a América Hispânica? O que nos separa (já que os
que nos une parece ser tão pouco). Octavio Getino diz que a Argentina não
tem um circuito alternativo tão bom e grande quanto o nosso. Este circuito
tem oferecido espaço real ao cinema brasileiro?
 
Senna - Nesses últimos quatro anos nosso diálogo com a América Hispânica tem
progredido substancialmente. A iniciativa do DOCTV Ibero-americano teve uma
ótima repercussão em todo o continente, com destaque para a América Central.
A criação da RECAM, Reunião Especializada de Cinema e Audiovisual do
Mercosul, com a participação dos países membros e dos países associados, tem
sido um foro privilegiado para o diálogo com os países vizinhos. Aumentamos
nosso aporte ao Programa Ibermedia e temos mantido um diálogo constante com
os países da região em todos esses foros. Foram realizadas co-produções com
Cuba (entre elas o sucesso internacional ³Yo soy Cuba ­ O Mamute Siberiano²)
e com o México (uma delas o impactante ³Cobrador² de Paul Leduc). O governo
tem se empenhado em abrir portas para a realização de iniciativas conjuntas.
Em relação ao acordo de co-distribuição com o INCAA, em primeiro lugar é
necessário destacar que os entendimentos entre o Brasil e a Argentina na
área do audiovisual, que têm sido alavancados por intermédio da RECAM, estão
em um nível nunca antes atingido. O acordo de co-distribuição com a
Argentina foi uma iniciativa pioneira que corroborou esses esforços. No
entanto, temos estruturas diferentes em relação à rede de salas de exibição,
o que tem causado um sucesso maior na exibição dos filmes argentinos no
Brasil do que dos filmes brasileiros na Argentina. Enquanto no Brasil temos
um circuito alternativo importante, na Argentina não há essa rede de salas,
o que tem levado o INCAA a investir na formação de uma rede de salas
próprias, os Espaços INCAA. O INCAA e a Ancine estão cientes dessa
assimetria na execução do Acordo de Co-distribuição e estão buscando
alternativas, entre as quais a utilização dos próprios Espaços INCAA. Neste
momento a Ancine e o INCAA estão trabalhando na extensão do acordo para
co-produção.


Revista de Cinema - O DOCTV Ibero América ampliará o diálogo entre TVs do
sub-continente?


Senna ­ O  Programa DOCTV Ibero-América, que está na etapa de produção dos
15 documentários da primeira edição, implantou pólos nacionais de
produção/teledifusão em Espanha, Portugal e em 13 países da América Latina,
reunindo  as principais emissoras públicas desta parte do mundo nos mesmos
paradigmas do DOCTV nascido no Brasil ‹ para co-produzir conteúdos com
produtores independentes e gerar programação em rede multilateral.
O programa implantou no âmbito da CAACI-Conferência das Autoridades
Audiovisuais e Cinematográficas Ibero-americanas um fundo internacional
voltado para o custeio das operações de produção e distribuição, ampliando
as bases de cooperação anteriormente exercitadas pelo Programa Ibermédia no
campo cinematográfico (agora a CAACI maneja dois fundos, o Ibermedia e o
DOCTV Ibero América). A ponte estabelecida entre as emissoras, e destas com
os produtores independentes, resulta em uma experiência pioneira que desenha
desdobramentos múltiplos entre os pólos nacionais parceiros, e futuramente
entre pólos regionais, como  hoje existem no DOCTV Brasil.
A junção da tv pública às políticas de fomento às expressões audiovisuais
nacionais é um fenômeno presente na América Latina e o DOCTV veio estruturar
um modelo de desenvolvimento, em uma ação que prevê também a articulação
futura do programa com as mais diferentes experiências de canais
internacionais que vem sendo implantados na região. Estou me referindo a
iniciativas já no ar, como a Telesur (Argentina, Cuba, Venezuela, Uruguai) e
a iniciativas em fase de implantação como a TCI-Televisión Cultural
Iberoamericana (envolvendo 22 países) e a TAL-Televisão da América Latina,
uma iniciativa brasileira (uma OSCIP-Organização da Sociedade Civil de
Interesse Público) apoiada pela Secretaria do Audiovisual que agrega cerca
de 200 emissoras públicas do continente em um sistema inédito de
distribuição. 
 
 
Revista de Cinema - Por que nem o escambo Brasil-Cuba saiu do plano das
intenções? Trazer filmes cubanos seria arrumar mais filmes para as
prateleiras? Afinal não há espaço no circuito comercial nem para os filmes
independentes brasileiros?
 
Senna - Os problemas que existem na distribuição de filmes brasileiros não
podem servir de obstáculo a que nosso público possa ter acesso à diversidade
da produção cinematográfica mundial. A série de acordos internacionais que
vimos estabelecendo e lutando pela implementação nos últimos anos devem ser
entendidos como uma via de mão dupla, em consonância com a defesa de uma
política voltada à diversidade cultural. Assim sendo, os acordos de
co-distribuição, colaboração audiovisual, co-produção e entendimentos afins
não devem ser pensados como concorrentes, mas como complementares. Por outro
lado, a idéia subjacente ao escambo Brasil-Cuba é a de buscar uma via de
colaboração com os países de menor desenvolvimento, com os quais não se
aplicaria os modelos tradicionais. O modelo do escambo Brasil-Cuba é uma
estratégia para superar as assimetrias entre os paises latino-americanos,
uma estratégia entre muitas que podem ser inventadas. Assinamos com o ICAIC
de Cuba no ano passado e estamos na fase de implementação do acordo de
escambo, em espanhol ³trueque², ou seja, troca. Estamos além das intenções,
estamos concretizando o acordo, que é um modelo que chamou atenção na CAACI
e na RECAM e possivelmente será utilizado mais vezes.
 
 
 





Enviada por: Orlando Senna <orlansenna em novanet.com.br>

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