
autor: Antonio Paiva Filho / email autor: sombraseletricas em yahoo.com.br
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data: Segunda Outubro 23 21:56:07 BRST 2006
CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Mais lenha na fogueira, digo, mais um texto sobre o
assunto:
CARTA ABERTA À ORGANIZAÇÃO DA MOSTRA DE CINEMA DE SP
Todos os meses de setembro e outubro, para melhor
cobrir o Festival do Rio e a Mostra de SP, redatores
de sites voltados para a crítica independente de
cinema (que atua sem remuneração, patrocínio ou
qualquer concessão) reprogramam suas atividades
profissionais: alguns chegam a sair de férias de seus
empregos, deslocam-se centenas de quilômetros entre
Estados e até abrem mão de trabalhos específicos. A
falta de apoios estruturais e financeiros nunca nos
impediu de buscar o rigor em nosso trabalho, com o
único objetivo de obter a legitimação através de
nossos leitores, e dos profissionais dos vários
setores da atividade cinematográfica - que, em nossa
otimista suposição, talvez compartilhem nossa
dedicação obsessiva pelo cinema e pela reflexão em
torno dele. Por isso tudo, supomos como um destes
parceiros justamente a Mostra de SP, que sempre se
orgulhou de difundir a cultura cinematográfica e o
pensamento crítico, e de ter historicamente posturas
em favor da amplitude do pensamento e contra qualquer
tipo de censura à liberdade intelectual. Ou, como
afirma Leon Cakoff à Carta Capital desta semana,
"incentivar a reverberação de idéias e discussões".
No entanto, em sua seleção de veículos credenciados
para cobrir o evento deste ano, a Mostra de SP
concedeu apenas uma credencial para toda a redação da
Cinequanon (que pôs no ar mais de 100 críticas na sua
cobertura de 2005) e simplesmente excluiu a Cinética,
que não cobriu a Mostra no ano passado por não
existir, mas que possui vários editores e redatores
bastante conhecidos da Mostra de anos anteriores em
outros veículos (foi feita uma oferta de 30 convites
individuais a serem distribuídos entre toda a equipe -
oferta que a editoria do site gentilmente recusou,
pelo caráter irrisório de "compensação"). A título de
comparação, o Festival do Rio optou por dar quatro
credenciais para a Cinética e a única que foi
solicitada pela Cinequanon - mais fortemente baseada
em SP. A Contracampo também teve sua cota de
credenciais reduzida pela metade do ano passado para
este, sendo que recebeu seis credenciais no Rio
(contra 2 em SP).
Cabe esclarecer que em todos os grandes festivais de
cinema do mundo, críticos e jornalistas da área são
credenciados para ter acesso aos filmes que compõem a
programação dos eventos. Quando um festival concede
credenciais para os críticos, não os está
presenteando, prestando favor ou dando-lhe um jabá,
mas contribuindo para a viabilização de um trabalho
que, durante o processo, será igualmente revertido
para o evento. Vê-se filmes com as credenciais porque
se está a trabalho, escrevendo e divulgando o evento.
A Mostra de SP alegou como único argumento para esta
decisão o fato que havia tido um número enorme de
pedidos de credenciamento neste ano. Não duvidamos
disso, assim como temos como algo claro que a Mostra
de SP é plenamente livre para escolher quem deve
credenciar para cobrir a sua realização. O que precisa
ficar claro é que toda escolha é mediada por posições
políticas, prioridades, estratégias e objetivos. E são
justamente estas que questionamos aqui nesta carta.
Neste caso, a prioridade da organização claramente
privilegia antes a mídia impressa, deixando a crítica
de internet em segundo (ou terceiro) plano:
importam-se quase exclusivamente com os veículos de
papel, de naturezas diversas, inclusive os sem espaço
para a cobertura diária da sua programação, ou sem
qualquer tradição de relação com o cinema - que, no
pouco espaço que reservam ao evento, certamente não
dão conta da maior parte da programação da Mostra,
especialmente os filmes que não são "da moda".
Neste movimento, é preciso dizer ainda que a Mostra
não se dá ao trabalho de diferenciar sites empenhados
na reflexão de outros marcados pela dedicação aos
"babados" e bastidores do cinema. Os espaços de
resistência da atitude analítica, talvez por não darem
algum retorno comercial ou de valoração de "espaço de
mídia" desejado, são tratados como coadjuvantes ou
como figuração. Essa decisão demonstra um grande
interesse na divulgação e um interesse pequeno pela
reflexão - o que, na prática, faz da Mostra de SP um
negócio de cinema e não um espaço do cinema como
expressão artística, ao contrário de tudo que sempre
pregou.
Ao assumir esta posição, o que nos parece essencial
perguntar é: quem são os maiores prejudicados com esta
decisão da Mostra? Seremos nós que, para trabalhar,
abrimos a carteira? Ou serão os leitores apaixonados
pelo cinema? Ou não seria a própria Mostra, que,
contradizendo sua retórica e sua história, dá de
ombros para a independência, a reflexão e a formação
de público específico? Muito mais do que nossas
dificuldades particulares de acesso aos filmes, o que
deve ser discutido neste momento é o processo de
priorização feito por um evento que foi criado e fez
sua fama por um perfil reflexivo e independente.
Acreditamos que este processo de perda do espaço
crítico é, portanto, uma questão que não interessa só
a nós - e só por esta crença dividimos o problema com
o leitor desta carta.
Nós, escorados na independência que sempre tivemos, no
respeito ao leitor e na crença de que nosso trabalho é
sim importante e merece ser prestigiado (nem que seja
por nós mesmos) prosseguiremos cobrindo a Mostra,
dentro das nossas possibilidades (vários redatores
optaram por comprar suas credenciais e ingressos, como
qualquer consumidor - embora, na prática, irão ver os
filmes para escrever sobre eles, a trabalho).
Esperamos que os leitores saibam reconhecer os
méritos, desculpar as limitações, e cobrar de quem
achar cabível o respeito pela sua inteligência e seu
amor ao cinema.
Para isso mesmo, lembramos aqui os emails oficiais da
Mostra (info em mostra.org) e da sua assessoria de
imprensa (imprensa em mostra.org), para onde devem ser
encaminhadas perguntas sobre os critérios e
prioridades do acesso crítico aos filmes.
Atenciosamente
Os editores e redatores da Cinequanon.art e da Revista
Cinética
ANTONIO PAIVA FILHO
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Enviada por: Antonio Paiva Filho <sombraseletricas em yahoo.com.br>
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