assunto: [CINEBRASIL] O real crescimento do cinema brasileiro

autor: Sergio Santeiro / email autor: santeiro em vm.uff.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Terça Outubro 24 12:57:03 BRST 2006


CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Belo relato da ação da política publica para o cinema no Brasil. Tal
como a prestação de contas do ministro é de encher os olhos o empenho e
engenho com que se houveram nesta condução difícil e árdua de inaugurar
relações auspiciosas com a comunidade cultural e a sociedade brasileira
e latina.
E é por isso mesmo que não tenho pejo de reptá-los a que
definitivamente garantam ainda agora no cerrar destas primeiras portas
e augurando a abertura das segundas neste domingo, marquem, coroem, não
se esquivem, o cumprimento da lei do curta, ainda agora.
Basta uma portaria do ministro, basta, convençam-no, não temam, o mundo
não cairá, o imperialismo só pode estar arquisatisfeito com a
sobrevivência e expansão dele, mas por primeira vez, que é nome de
filme cubano dos bons, está sendo contido nos limites territoriais de
sua arrogância.
E não fiquem aborrecidos como soube que ficaram pois não os estamos a
voces desafiando com a lei do curta, estamos suplicando que não fuja o
estado a seus deveres. Não tergiversem mais, façam cumprir a lei.
Aproveitem a deixa do Ministério Publico. Tigres são papéis.
Como já tive oportunidade de dizer voces, o estado brasileiro,
expandiram enormemente e fizeram muito bem a produção audiovisual no
país mas tem agora a obrigação de garantir a sua plena circulação em
nosso território.
Que se suspendam todos os benefícios e subsídios diretos e indiretos ao
audiovisual estrangeiro. A praça é nossa, a fome é nossa, a vida é
nossa e o cinema é nosso tambem.
E isto é a homenagem que lhes presto pelo reconhecimento dos teus
trabalhos. Sentado, à beira do caminho, espero a portaria. 
Sergio Santeiro.

Quoting Orlando Senna <orlansenna em novanet.com.br>:


>
>
>
> Revista de Cinema 71 ­ Outubro de 2006
>
>
> Entrevista
>
> Orlando Senna
> O real crescimento do audiovisual brasileiro
>
> Por Maria do Rosário Caetano
>
>
> O secretário do Audiovisual, cineasta Orlando Senna, expõe nesta entrevista
> o investimento do Ministério da Cultura em sua área, nesses quatro anos em
> que está à frente da secretaria, e analisa a função desses projetos
> culturais dentro de uma formação de identidade nacional. Um panorama das
> políticas públicas adotadas no Brasil e em outros paises da América Latina.
> O secretário defende a democratização da produção audiovisual que adotou,
> tornando prática a chamada inclusão de populações sem acesso às novas
> tecnologias transmissoras de conhecimento, como o vídeo e o cinema digital.
> ³Incorporamos à vida cultural setores que sempre estiveram excluídos², disse
> Senna. Os programas são os DOCTV, uma série de documentários que passam na
> tv aberta, realizados em todos os Estados brasileiros, e o Revelando os
> Brasis, concurso que permite que pessoas simples possam filmar suas
> histórias, realizado em parceria com o Canal Futura, que os exibe. Além dos
> pontos de exibição de cinema digital, fomento ao cineclubismo como forma de
> aumentar o número do circuito exibidor, que cresceu 24,86% nestes últimos
> três anos.
> Senna explica que esses projetos se inscreveram numa lógica abrangente e
> contemporânea que coloca o audiovisual como a mais dinâmica economia da era
> pós-industrial. ³Isso significa, em termos de política pública, desenvolver
> programas que consolidem o país como um grande produtor audiovisual, capaz
> de alimentar os inúmeros circuitos que as inovações tecnológicas colocam à
> disposição do mercado², disse.
> Anuncia também os resultados dessa política, afirmando que neste momento 170
> filmes estão sendo realizados, em distintas etapas de produção, por todo o
> pais, e no expressivo crescimento do filme brasileiro no mercado exibidor
> interno: em 2002 e anos anteriores a taxa de ocupação do filme brasileiro em
> seu próprio mercado estava ao redor de 6% e a taxa média anual de ocupação
> agora é de 15,6%.
>
> .............
>
> Revista de Cinema - Que projetos desenvolvidos  nestes três anos e oito
> meses de trabalho de gestão na SAV-MinC deram bons resultados?
>
> Orlando Senna ­ Em prol da clareza, vamos dar outra ênfase à pergunta. Para
> além da realização de alguns projetos bem sucedidos, esta gestão incluiu o
> audiovisual na pauta federal, como tema estratégico de Estado. Construímos
> um programa baseado nas discussões históricas do setor, lançado logo nos
> primeiros meses do governo Lula, que expressava no próprio nome, ³Brasil: um
> país de todas as telas², o conceito central das políticas que foram
> implementadas. A democratização e a regionalização das ações e recursos
> conduziram os projetos desenvolvidos nas áreas  da produção/criação, difusão
> e preservação audiovisuais. Esses projetos se inscreveram numa lógica
> abrangente e contemporânea que coloca o audiovisual como a mais dinâmica
> economia da era pós-industrial. Isso significa, em termos de política
> pública, desenvolver programas que consolidem o País como um grande produtor
> audiovisual, capaz de alimentar os inúmeros circuitos que as inovações
> tecnológicas colocam à disposição do mercado. E também possibilitar que o
> audiovisual, enquanto experiência estética, seja vivenciado pelo maior
> número de públicos possíveis.
> Estou falando de democracia cultural, que implica na superação do
> tradicional foco das políticas públicas, que priorizava os produtores
> culturais. Esta gestão (e aqui incluo as ações do MinC em geral) incorporou
> à vida cultural setores que sempre estiveram excluídos.
> Os resultados dessa política podem ser expressados nos 170 filmes que estão
> sendo realizados, em distintas etapas de produção, por todo o país, e no
> expressivo crescimento do filme brasileiro no mercador exibidor interno: em
> 2002 e anos anteriores a taxa de ocupação do filme brasileiro em seu próprio
> mercado estava ao redor de 6% e a taxa média anual de ocupação no governo
> Lula (2003, 2004, 2005) é de 15,6%. Ou seja, mais do dobro. De 2001 a 2003
> foram 30 lançamentos anuais, em 2004 e 2005 foram 51 lançamentos anuais,
> neste 2006 deve ultrapassar os 60 lançamentos.
> Mas se você me pede que cite especificamente projetos que tiveram bons
> resultados, enumero os que se tornaram emblemáticos pela inovação e por suas
> capacidades de radicalizarem o conceito central de democratização: o DOCTV,
> o Revelando os Brasis, os JogosBR,  o Olhar Brasil, os programas setorias de
> exportação de TV e cinema, a ampliação dos editais da Petrobrás e do BNDES.
> Devo mencionar a articulação de alguns editais de produção com a
> teledifusão, um procedimento que está rendendo bons frutos.
> Os investimentos e os resultados destes quatro anos superam o que temos de
> referência dos anos anteriores. Somente em produção, foram investidos R$ 592
> milhões 350 mil, incluindo recursos diretos e renúncia fiscal. Em sintonia
> com a diretriz geral do MinC, a Secretaria do Audiovisual desfez a lógica
> separatista de décadas, que era a concentração das ações/recursos na região
> sudeste. Hoje existe um equilíbrio na destinação das ações/recursos,
> abarcando todas as regiões ‹ e refletindo na qualidade e diversidade da nova
> geração de cineastas. Essa democratização foi implementada sem prejuízo do
> eixo industrial Rio-São Paulo, que continuou com o atendimento que exige seu
> status econômico. Isso foi possível com o aumento dos investimentos estatais
> na atividade em 125%, em comparação com a média de investimentos do governo
> anterior.
>
>
> Revista de Cinema - A mais ruidosa proposta do MinC-SAV, a criação da
> Ancinav, não prosperou.  Restou algo positivo (algum aprendizado) da dura
> discussão deste projeto?
>
> Senna ­ A necessidade premente do Brasil criar marcos regulatórios modernos
> tinha de vir a público, e esse é um resultado positivo da polêmica da
> Ancinav.  Quando digo moderno refiro-me à regulação da atividade audiovisual
> como um todo, levando em consideração a interdependência de todos seus
> segmentos, ou seja, levando em consideração a sua realidade e o avanço dos
> paises industrializados no que se refere às legislações abrangentes. Esse
> tema, de suma importância para o posicionamento do Brasil nas estratégias de
> poder global do século XXI, de suma importância para a nossa economia
> interna, era tratado e decidido pelos governos com duas ou três empresas de
> radiodifusão e com meia dúzia de grandes produtores de cinema. Ao lançar a
> proposta da Ancinav à discussão na sociedade, com consulta pública, debate
> entre as diversas áreas do setor e posicionamentos da mídia, o assunto se
> revelou em sua inteira importância e complexidade. O Pais ficou sabendo do
> que se tratava, da real dimensão do tema.
> Sob o ponto de vista prático, o debate público sobre normatização
> audiovisual ecoou no governo, o presidente Lula criou, em 2005, um Grupo de
> Trabalho Interministerial para elaborar anteprojeto da Lei de Comunicação
> Eletrônica de Massas. É um processo que adquire novos contornos com a
> implantação da TV Digital e todas suas conseqüências. A nova grandeza da
> comunicação audiovisual com o advento da TV Digital, do cinema digital, das
> novas tecnologias e mídias de difusão de conteúdos, só poderá se instalar
> plenamente no Brasil se forem estabelecidas regras claras, sólidas e
> democráticas para seus modelos de negócios e sua relação com a sociedade,
> sua responsabilidade social.  O assunto está vivo no governo e no setor e
> naturalmente, por força das novas circunstâncias de mercado, voltará ao foco
> em pouco tempo. Tudo indica que uma nova etapa de discussão será menos
> nervosa e emocional do que a de 2004,  já que terá de convergir sem perda de
> tempo para resultados racionais, para um modelo de organização. O debate da
> Ancinav amadureceu os setores envolvidos.
>
>
> Revista de Cinema -  Me dê um quadro REALISTA da exibição. Como a encontrou
> e como ela está hoje (46 meses depois)? Quantas salas foram criadas para
> ajudar na difusão do cinema brasileiro? A Sala Cinemateca-BNDES fica pronta
> quando? Ela será ponta de lança de um circuito de difusão do cinema
> brasileiro.
>
> Senna - Houve crescimento de 24,86% do parque exibidor nos últimos quatro
> anos, quase todo ele no setor de salas de shoppings. Em dezembro de 2002
> existiam 1635 salas no País, agora são 2041. Um circuito digital deu os
> primeiros passos e já conta com cerca de 80 salas, com tendência a
> crescimento acelerado. O BNDES abriu uma linha de financiamento para
> construção de salas que está começando a dar frutos: uma empresa exibidora
> em ascensão está utilizando as boas condições desse financiamento para
> construir dez salas, para crescer. Testada pelo mercado em mutação, essa
> linha de financiamento deve receber ajustes que permitam acesso também a
> pequenos empresários interessados em salas digitais de baixo custo. Em ação
> direta do governo, via Petrobrás e BNDES, foram restaurados uma dezena de
> cinemas tradicionais em várias cidades, e também construidos (como as duas
> salas da Cinemateca Brasileira). Também vale mencionar o fomento direto à
> distribuição de filmes brasileiros, uma ação conjunta do MinC/Petrobrás, e o
> Adicional de Renda restaurado pela Ancine.
> A Secretaria do Audiovisual anunciará ainda este ano o projeto Programadora
> Brasil, um trabalho conjunto do CTAv-Centro Técnico Audiovisual e da
> Cinemateca Brasileira. Depois de três anos de preparação, levantamento de
> dados, direitos autorais, análises jurídicas e toda a parafernália
> burocrática, entramos na primeira fase de implantação. Trata-se de organizar
> o grande circuito dos cineclubes, dos espaços de exibição públicos e
> comunitários e agora também dos Pontos de Cultura e garantir filmes para
> esse circuito. Daí a Programadora, que organiza e oferece pacotes de
> programação a todos esses pontos de exibição, que serão gratuitos ou
> cobrarão um ingresso barato.
> Uma ação complementar à Programadora já está se concretizando neste momento,
> que é o edital para os Pontos de Difusão Digital, a instalação de cem
> equipamentos de projeção em todo o Pais. É um edital destinado a cineclubes
> e instituições públicas, universidades e escolas inclusive, que possuem
> espaços adequados para exibição. O longo processo de montagem desse circuito
> alternativo e da Programadora Brasil deve mostrar seus primeiros resultados
> em um ano.
> Mas me permita dizer que não podemos resumir a questão da exibição às salas
> de cinema. Ela envolve outros aspectos, outras mídias e, especialmente, o
> estabelecimento de estratégias que incorporem outros organismos públicos nas
> ações e no investimento. O programa Olhar Brasil, por exemplo, é
> praticamente uma convocação aos órgãos públicos estaduais e municipais para
> que desenvolvam  políticas de audiovisual. São onze Estados e/ou municípios
> incorporados através desse programa, que é a instalação de núcleos de
> produção digital, estabelecendo uma base territorial de
> criação/produção/difusão, uma efetiva rede inclusiva de novos protagonistas
> regionais. Menciono essa necessidade de parcerias, de união de forças,
> porque é impossível criar circuitos de exibição que resolvam o problema da
> demanda brasileira se não incluirmos os Estados e, especialmente, os
> municípios brasileiros nessa tarefa.
> Por outro lado, a Secretaria do Audiovisual deu importância especial à
> parceria com a televisão, que é fundamental como se sabe. Grande parte das
> editais realizados nesta gestão foram construídos numa perspectiva de
> exibição via televisão, programas de produção/teledifusão. A parceria com a
> televisão pública se estabeleceu com os programas DOCTV, DOCTV
> Ibero-americano, Curta Criança, Curta Animação, Animação Um Minuto, Menino
> Muito Maluquinho. A parceria com a televisão privada foi inaugurada com o
> Canal Futura, que exibe o Revelando os Brasis, e com o programa Documenta
> Brasil, envolvendo o SBT, a ABPITV-Associação Brasileira de Produtores
> Independentes de Televisão e a Petrobrás. A distribuição/exibição é a
> questão central do cinema brasileiro e da produção independente de tv e, por
> isso, foi priorizada pelo governo.
>
>
> Revista de Cinema - Por que não se construiram circuitos na periferia? Os
> PONTOS de CULTURA suprem esta lacuna? Em que medida?  Há ESTATÍSTICAS
> PALPÁVEIS sobre os pontos de cultura. Questiono: passar filme de graça
> adianta alguma coisa? É preciso dar o peixe ou ensinar a pescar?
>
> Senna ­ Uma política pública para a distribuição/exibição está em andamento,
> como acabo de expor, avançando em ritmo abaixo dos nossos desejos mas em
> conformidade com as dificuldades institucionais e financeiras que uma
> iniciativa como essa apresenta. São dois movimentos que consideramos
> complementares e retroalimentadores: ações referentes à ampliação e ao
> fortalecimento do mercado exibidor e ações governamentais diretas, como a
> instalação de circuitos culturais alternativos. A periferia está contemplada
> basicamente, no atual estágio da política pública para a
> distribuição/exibição, nas ações governamentais diretas, já que o mercado
> não demonstra interesse por esse público. São ações como a Programadora
> Brasil, Olhar Brasil, Pontos de Difusão Digital, Pontos de Cultura.
> Um dado importante nessa questão é o cineclube. Fomentamos a retomada do
> movimento cineclubista, que reúne hoje cerca de 200 espaços de exibição, boa
> parte deles nas periferias das grandes cidades. Quanto aos Pontos de
> Cultura: já estão em funcionamento 500, sendo que cem deles têm ênfase em
> audiovisual e o MinC trabalha nesse momento em um projeto de rede satelital
> interligando esses cem pontos. Tudo faz crer que esse percentual de 20% com
> ênfase em audiovisual será estendido pela totalidade, pela ampliação
> prevista para dois mil Pontos de Cultura até 2008.
> A questão de passar filme de graça, sempre recorrente, é discutida
> normalmente de forma reduzida. As pesquisas sobre práticas culturais
> realizadas em países como a França e o México ­ que têm certa tradição
> nestes estudos ­ indicam que as barreiras para incluir a maioria das
> populações na vida cultural não se resumem apenas em obstáculos materiais,
> como o preço dos ingressos ou a distância dos centros de cultura, por
> exemplo. As barreiras simbólicas são mais determinantes na decisão de um
> cidadão escolher ver este ou aquele espetáculo. Exibir filmes gratuitamente
> para segmentos da população que não podem pagar ingresso é necessário sim.
> Mas não apenas isso, o acesso a um filme tem de ser complementado por ações
> como o Revelando os Brasis, que favorece a experiência estética audiovisual
> do cidadão comum, cria hábitos, incorpora no imaginário destas pessoas novos
> referenciais simbólicos. Adotar o ensino da linguagem audiovisual na escola
> formal é outra estratégia, que estamos construindo com o Ministério da
> Educação. Aprender cinema na escola como se aprende a ler e escrever o
> português, porque, apesar da atualidade ter uma grande diversidade de meios
> de formação (especialmente os mídia), a escola ainda é o espaço de
> socialização mais rico na formação de hábitos e práticas culturais.
>
>
> Revista de Cinema - Investir em um projeto como o "Revelando os Brasis" é
> pulverizar recursos? Não há excesso de cineastas no país?
>
> Senna ­ O objetivo do programa Revelando os Brasis não é formar cineastas. O
> conceito central do projeto é o de inclusão audiovisual, disponibilizando as
> condições necessárias para que populações excluídas dos processos de
> formação, produção e fruição audiovisuais saiam da marginalidade cultural a
> que foram relegadas. Os códigos audiovisuais formam, hoje, um dos elementos
> definidores das sociabilidades globalizadas, o que exige políticas públicas
> que atendam às populações para que elas possam operar socialmentes nas
> mesmas condições dos setores que  têm acesso às novas linguagens. Essa
> preocupação está presente em muitos países, em termos de políticas públicas.
> Nós entendemos que Revelando os Brasis é o programa do MinC que mais
> radicaliza os conceitos de inclusão e de democratização culturais, tão caros
> à gestão do Ministro Gilberto Gil. Para além do fomento às produções
> profissionais, ao mercado profissional, entendemos que os governos devem
> construir outras estratégias para assegurar uma inserção mais soberana no
> mundo globalizado e Revelando os Brasis caminha nesta perspectiva. Além do
> conceito central, o propósito da inserção, outro elemento dá uma identidade
> própria ao projeto: o envolvimento de populações de municípios com até 20
> mil habitantes. Esse público é formado exatamente pelas populações
> tradicionalmente excluídas das políticas públicas. É importante acentuar o
> aspecto simbólico que envolve o projeto. Os vídeos resultantes do programa
> conformam um acervo de imagem de uma riqueza enorme. São registros do Brasil
> profundo, de uma matéria social que normalmente não aparece nas telas do
> País.
>
>
> Revista de Cinema -  O DOCTV ajudou a aproximar o documentário brasileiro da
> TV? A Rede Pública o encarou com seriedade ou apenas como uma "obrigação"?
> Por que os docs foram exibidos quase na madrugada?
>
> Senna ­ Após quatro anos de exercício, o DOCTV foi capaz de gerar mais de
> 150 documentários, realizados em todo o País a partir de co-produções de
> emissoras públicas, produtores independentes e o governo federal. Foram
> geradas mais de três mil horas de programação qualificada para as tvs
> públicas brasileiras. O DOCTV  implementou Pólos Estaduais de Produção e
> Exibição de documentários, com o apoio da ABD-Associação Brasileira de
> Documentaristas, em todos os Estados da federação, articulando organicamente
> emissoras e produtores locais. Articulando parcerias não para em evento ou
> uma ação pontual, mas para uma atuação permanente, voltada para a
> construção de um novo modelo de produção televisiva, capaz de dinamizar
> mercados regionais de produção e exibição de documentários. O impacto do
> programa sobre as emissoras públicas foi de tal ordem que incidiu
> substancialmente na base organizativa do setor, ampliando o quadro de
> associados da ABEPEC-Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas
> e Culturais, responsável pela boa saúde da Rede Brasil. Emissoras de sete
> Estados, antes desarticuladas da Rede, passaram a integrá-la ao gerar e
> transmitir conteúdos do DOCTV.
> No quadro atual de dificuldade vivido pelas emissoras públicas, com a
> estruturação do setor apresentando enormes deficiências, o modelo DOCTV
> tornou-se alternativa de produção e matriz simbólica para o desenvolvimento
> da rede, gerando paradigmas fundamentais para a qualidade da programação e
> para o desenvolvimento da tv pública no Brasil.
>
> A programação do DOCTV é composta por faixa de estréias em rede e por grades
> regionais de reprises. A faixa de estréia, definida na primeira edição aos
> sábados, às 21 horas, sofreu uma alteração na segunda edição, indo para os
> domingos às 23 horas. Esta mudança se deveu a adequação de  programação, a
> partir de critérios técnicos de perfil de audiência apresentados pela TV
> Cultura de São Paulo, que apontaram como positivo   o deslocamento do
> horário. O foco foi buscar a aproximação do DOCTV com um público adulto
> interessado, mais disponível neste novo horário. Mas, além desse horário de
> estréias nacionais em rede, o programa tem reprises durante a semana em
> todos os Estados.
>
>
> Revista de Cinema - Como está o diálogo com a América Hispânica? Por que
> ainda não saiu a terceira etapa do Acordo Ancine-INCAA? Por que não
> conseguimos dialogar com a América Hispânica? O que nos separa (já que os
> que nos une parece ser tão pouco). Octavio Getino diz que a Argentina não
> tem um circuito alternativo tão bom e grande quanto o nosso. Este circuito
> tem oferecido espaço real ao cinema brasileiro?
>
> Senna - Nesses últimos quatro anos nosso diálogo com a América Hispânica tem
> progredido substancialmente. A iniciativa do DOCTV Ibero-americano teve uma
> ótima repercussão em todo o continente, com destaque para a América Central.
> A criação da RECAM, Reunião Especializada de Cinema e Audiovisual do
> Mercosul, com a participação dos países membros e dos países associados, tem
> sido um foro privilegiado para o diálogo com os países vizinhos. Aumentamos
> nosso aporte ao Programa Ibermedia e temos mantido um diálogo constante com
> os países da região em todos esses foros. Foram realizadas co-produções com
> Cuba (entre elas o sucesso internacional ³Yo soy Cuba ­ O Mamute Siberiano²)
> e com o México (uma delas o impactante ³Cobrador² de Paul Leduc). O governo
> tem se empenhado em abrir portas para a realização de iniciativas conjuntas.
> Em relação ao acordo de co-distribuição com o INCAA, em primeiro lugar é
> necessário destacar que os entendimentos entre o Brasil e a Argentina na
> área do audiovisual, que têm sido alavancados por intermédio da RECAM, estão
> em um nível nunca antes atingido. O acordo de co-distribuição com a
> Argentina foi uma iniciativa pioneira que corroborou esses esforços. No
> entanto, temos estruturas diferentes em relação à rede de salas de exibição,
> o que tem causado um sucesso maior na exibição dos filmes argentinos no
> Brasil do que dos filmes brasileiros na Argentina. Enquanto no Brasil temos
> um circuito alternativo importante, na Argentina não há essa rede de salas,
> o que tem levado o INCAA a investir na formação de uma rede de salas
> próprias, os Espaços INCAA. O INCAA e a Ancine estão cientes dessa
> assimetria na execução do Acordo de Co-distribuição e estão buscando
> alternativas, entre as quais a utilização dos próprios Espaços INCAA. Neste
> momento a Ancine e o INCAA estão trabalhando na extensão do acordo para
> co-produção.
>
>
> Revista de Cinema - O DOCTV Ibero América ampliará o diálogo entre TVs do
> sub-continente?
>
>
> Senna ­ O  Programa DOCTV Ibero-América, que está na etapa de produção dos
> 15 documentários da primeira edição, implantou pólos nacionais de
> produção/teledifusão em Espanha, Portugal e em 13 países da América Latina,
> reunindo  as principais emissoras públicas desta parte do mundo nos mesmos
> paradigmas do DOCTV nascido no Brasil ‹ para co-produzir conteúdos com
> produtores independentes e gerar programação em rede multilateral.
> O programa implantou no âmbito da CAACI-Conferência das Autoridades
> Audiovisuais e Cinematográficas Ibero-americanas um fundo internacional
> voltado para o custeio das operações de produção e distribuição, ampliando
> as bases de cooperação anteriormente exercitadas pelo Programa Ibermédia no
> campo cinematográfico (agora a CAACI maneja dois fundos, o Ibermedia e o
> DOCTV Ibero América). A ponte estabelecida entre as emissoras, e destas com
> os produtores independentes, resulta em uma experiência pioneira que desenha
> desdobramentos múltiplos entre os pólos nacionais parceiros, e futuramente
> entre pólos regionais, como  hoje existem no DOCTV Brasil.
> A junção da tv pública às políticas de fomento às expressões audiovisuais
> nacionais é um fenômeno presente na América Latina e o DOCTV veio estruturar
> um modelo de desenvolvimento, em uma ação que prevê também a articulação
> futura do programa com as mais diferentes experiências de canais
> internacionais que vem sendo implantados na região. Estou me referindo a
> iniciativas já no ar, como a Telesur (Argentina, Cuba, Venezuela, Uruguai) e
> a iniciativas em fase de implantação como a TCI-Televisión Cultural
> Iberoamericana (envolvendo 22 países) e a TAL-Televisão da América Latina,
> uma iniciativa brasileira (uma OSCIP-Organização da Sociedade Civil de
> Interesse Público) apoiada pela Secretaria do Audiovisual que agrega cerca
> de 200 emissoras públicas do continente em um sistema inédito de
> distribuição.
>
>
> Revista de Cinema - Por que nem o escambo Brasil-Cuba saiu do plano das
> intenções? Trazer filmes cubanos seria arrumar mais filmes para as
> prateleiras? Afinal não há espaço no circuito comercial nem para os filmes
> independentes brasileiros?
>
> Senna - Os problemas que existem na distribuição de filmes brasileiros não
> podem servir de obstáculo a que nosso público possa ter acesso à diversidade
> da produção cinematográfica mundial. A série de acordos internacionais que
> vimos estabelecendo e lutando pela implementação nos últimos anos devem ser
> entendidos como uma via de mão dupla, em consonância com a defesa de uma
> política voltada à diversidade cultural. Assim sendo, os acordos de
> co-distribuição, colaboração audiovisual, co-produção e entendimentos afins
> não devem ser pensados como concorrentes, mas como complementares. Por outro
> lado, a idéia subjacente ao escambo Brasil-Cuba é a de buscar uma via de
> colaboração com os países de menor desenvolvimento, com os quais não se
> aplicaria os modelos tradicionais. O modelo do escambo Brasil-Cuba é uma
> estratégia para superar as assimetrias entre os paises latino-americanos,
> uma estratégia entre muitas que podem ser inventadas. Assinamos com o ICAIC
> de Cuba no ano passado e estamos na fase de implementação do acordo de
> escambo, em espanhol ³trueque², ou seja, troca. Estamos além das intenções,
> estamos concretizando o acordo, que é um modelo que chamou atenção na CAACI
> e na RECAM e possivelmente será utilizado mais vezes.
>
>
>
>
>
>
>
>
> Enviada por: Orlando Senna <orlansenna em novanet.com.br>
>

Enviada por: Sergio Santeiro <santeiro em vm.uff.br>

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