
autor: Sergio Santeiro / email autor: santeiro em vm.uff.br
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data: Segunda Dezembro 3 09:53:19 BRST 2007
CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Histórias do Brasil
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Por Sergio Santeiro
Como todos nós, sempre ouvi dizer que a história só é a escrita pelos
vencedores. Mas não precisava exagerar. Estamos a comemorar a 29 de
novembro, ontem, quando escrevo, os 200 anos da vinda da família real
portuguesa em fuga do cerco francês a Portugal.
Trata-se, de fato, de uma segunda invasão portuguesa. A primeira, é
claro, alcunhada de "descobrimento do Brasil". Nem era Brasil, e
descobrimento é imaginar que algo cobria Pindorama, talvez a eterna
ignorância etnocêntrica européia que se acredita o centro do universo,
já que a manjedoura da humanidade consta ser o território africano, do
qual roubaram também os portugueses centenas, milhares, milhões de
braços e mãos que escravizaram. E, como também hoje se sabe, o
conceito de centro do universo afronta até a física.
Brasileiro gosta de comemorar, ou pelo menos, diverte-se em fazer da
tragédia passos de baile. A verdadeira comemoração seria, no mínimo,
uma modesta revisão que despisse os mantos da ignorância que nos
impõem nomes e datas elogiadas que deveriam nos horrorizar.
Nestes duzentos anos, vejo moverem mundos e fundos para tratar de se
era ou não a família real o que dela se diz ou disse, os seus feitos
memoráveis de recriar na colônia os vícios e maldades da metrópole.
Não tenho tempo, nem cabeça, nem competência para reescrever a
história, mas não posso esquecer o extraordinário impacto em minha
vida pré-universitária da "História Nova", tarefa a que se entregaram
entre outros, o querido por todos professor Manuel Maurício,
perseguidos a partir do golpe de 64 por terem ousado demonstrar que
história era de verdade a nossa história.
E hoje, sem implicar em demasia, fico assustado de ver quão próxima é
a nossa prática cotidiana de aviltar e reaviltar nossos antecedentes.
Aqui em Niterói, perto de onde escrevo, consta que na praça de São
Domingos, os comerciantes abastados e abestados da miserável
província, portugueses com certeza, ora pois pois, puseram à
disposição do Regente uma construção vetusta com cara de palácio para
os nossos padrões colonizados.
Não era bem uma Versalhes, também como aquela mais se prestava às
esbórnias de um e outro, inclusive o jovem Pedro, neto da carrasca que
enforcou Tiradentes, usurpando-lhe não só as terras, como a
independência da colônia. Como levar a sério uma independência
proclamada pelo futuro rei do reino de quem se independenciava?
Parece piada de português, só que com o sangue e os membros
esquartejados de muitos dos também ainda portugueses, mas, no mínimo,
tisnados pelo sol do trópico, senão pela mistura racial que, entre
nós, devido à não importação de cachoupinhas louçãs, deve ter começado
na manhã seguinte à invasão.
Massacres são o que compõem a nossa história, e ainda até hoje
continuam a compô-la. Só não deviam escarnecê-la tanto ou ainda mais.
Para não sair totalmente do que é a minha praia, e ver como na minúcia
reproduzimos a geral, o plano próximo reproduz o plano geral.
Estava posto em desassossego ao ver um desses malditos "é-ventos" que
pululam no cenário de nosso cinema, os tais de festivais que não sei
porque não só se acumulam como montam uns nos outros, talvez por
quererem reproduzir-se com mais vigor.
Um tal de Araribóia Cine, o sexto, promovido pelos picaretas batedores
de carteira infiltrados no magistério. São formadores de bandalha e,
imagino, por conseguinte, talvez de bandalheiros, além de homenagearem
o invasor nativo do Espírito Santo trazido pelos portugueses para
simular uma guerra tribal em que exterminaram os tamoios e Aimberê no
Rio, e os tupinambá e Cunhambebe em Niterói, o fazem em nome da
Universidade Federal Fluminense, a nossa universidade pública,
gratuita, e socialmente referenciada.
Poderiam ter consultado o notável curso e departamento de História da
própria Universidade, para desfazerem o equívoco de beneficiarem o
infrator. Não satisfeitos, e chegando mais próximo do meu alvo,
professam incluir o filme "Como era gostoso o meu francês", a
deliciosa crônica histórica do Nelson Pereira dos Santos, baseada na
convivência do francês vivido por Arduíno Colassanti, principal
homenageado do piquenique, em que os tupinambás e os franceses foram
os alvos justamente da perfídia do tal do Araribóia que, na mutreta,
ficou com os territórios ancestrais, hoje o nosso Niterói.
Também o Nelson Pereira dos Santos, nosso patrono, e do cinema
brasileiro e do curso de cinema por ele criado aqui, é novamente
invocado para acobertar a homenagem ao Araribóia, e mais ainda para
acobertar o que chamam de "curso de cinema e audiovisual".
Gostaria que alguém me esclarecesse o que é "cinema" e o que é
"audiovisual", como se fossem coisas distintas justamente às vésperas
de comemorarem os 40 anos de criação do curso de cinema e vídeo.
Estou sendo covarde, não sei se terei coragem de observar tudo isso
frente ao nosso imortal e por isso me sirvo destas letras óticas.
Também não sei se terei coragem de cumprimentá-lo se o não fizer. Quem
sabe ficarei escondido à sombra de tantas comemorações só com furtivas
lágrimas batendo-me no peito.
Bela comemoração, mudam o nome do comemorado, e enterram talvez junto
com Cunhambebe a memória da história dos quarenta anos do curso que
não tem porque deixar de ser "de cinema e vídeo", junto com o
patrimônio audiovisual da universidade, como já disse, também
massacrado pelos mesmos batedores de carteira acadêmicos.
Cova rasa de preferência como se costuma fazer com os excluídos da
história: os vencidos.
Não sei se deu para acompanhar este passeio nas histórias do Brasil,
ou se fui claro o suficiente. Deve ser porque a poeira da cova rasa
deixa-me como que obnubilado pela opressão de mais de quinhentos anos
de invasões dos vencedores.
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E-mail: santeiro em vm.uff.br
02.12.2007
Enviada por: "Sergio Santeiro" <santeiro em vm.uff.br>
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