assunto: [CINEBRASIL] Folhetim II - 8

autor: Jose Sette / email autor: jsette_br em yahoo.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Sábado Maio 19 01:00:43 BRT 2007


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Folhetim Elétrico II - 8
   
  Folhetadas:
  1. Gostaria muito de assistir aos filmes: Batismo de Sangue do Helvécio
Ratton e Baixio das Bestas do Cláudio Assis. Acho que estes dois filmes, um
mineiro e o outro pernambucano, por mais paradoxal que possa parecer, tem
algo em comum: a intolerância e a violência. A intolerância, importada de um
sistema que detesta a cordialidade do homem brasileiro, sistema que sempre
favoreceu as elites, amamentando os eternos privilegiados do Brasil, que,
afora as mudanças econômicas, não mudou muito do tempo histórico de um filme
ao outro e a violência, também importada, disseminadas nos porões da
ditadura pelo professor americano Don Mitrione e seu aluno Fleury, que
estabeleceu no Brasil o direito sádico de matar pela tortura em busca de uma
verdade muitas vezes suspeita só vistas nos filmes de ação importados de
roliude. Dois filmes brasileiros que tratam da violência: um da causa e o
outro do efeito. Só não fui ainda assisti-los porque moro em Cabo Frio e o
único cinema que temos
 aqui insiste em só passa filmes de roliude. Alô! Distribuidores e
exibidores! Ancine e Minc! Quando vamos exibir os nossos bons filmes por
todo o nosso território? Acorda Brasil!  
  2. Outros novos filmes brasileiros, documentários, que tenho curiosidade
de assistir: o do Ricardo Miranda sobre o cineasta Paulo César Saraceni e o
do Sílvio Darrim sobre os jovens revolucionários trocados pelo embaixador
americano.Adoraria ver a homenagem que Noilton Nunes faz a Euclides da Cunha
no seu novo filme. Filme que ele vem realizando a mais de 8 anos. Deve ser
um filme genial.
  3. Li na lista do cinema mineiro os filmes que foram agraciados com
dinheiro do governo de Minas para serem produzidos, roteirizados, lançados,
etc. Não sei se eles participaram, mas, não desfazendo dos favorecidos,
senti a falta de alguns cineastas importantes do histórico cinema brasileiro
feito em Minas Gerais. Por quê o talentoso, o inventivo poeta das imagens,
Fábio Carvalho foi descriminado nesta seleção? Outra coisa que achei
estranho foram os 700.000 reais para um documentário. Será que é isso mesmo?
Para que oferecer vultosas quantias para produtores de fora do estado? Em
vez de convidar alguém de fora dê uma chance aos artistas mineiros que estão
de fora.
  4. A greve dos funcionários da cultura oficial brasileira tem me
prejudicado bastante: eu sou viciado em trabalhar ouvindo a rádio Mec do
Rio. Sem ela eu não consigo viver! Veja bem presidente: o que custa dá um
aumentozinho aos funcionários? Vossa Excelência vai salvar a minha vida!     
                                                                            
                                                   
  Roteiro:
  No caminho de Minas relampeja o céu que envolve a serra na noite escura.
Na baixada, segue Ottoni o seu destino. Um raio corta as nuvens carregadas à
sua frente iluminando a cadeia de montanhas que formam a Serra do Mar.
Ottoni pára num córrego dando de beber a besta Montanha quando, de repente,
sai do mato assustado um homem preto, um escravo. Ottoni não se assusta com
o preto fujão, olha nos seus olhos e diz: - Salve! O Negro: - Salve! Ottoni:
- Estou procurando um abrigo, você sabe onde estou? O Negro, assustado: -
Aqui são as terras do Barão de Pati comandante da Guarda Nacional. Por este
caminho, umas duas léguas nesta direção (aponta o caminho), está a sede da
fazenda... O Negro ouve um barulho na mata, passos quebram os galhos secos.
O escravo fica inquieto. Ottoni também. O negro assustado sai correndo pelo
mato... A besta Montanha fica agora assustada. Ottoni: - Tenho que sair
imediatamente daqui! Então do mato surge um soldado com uma tocha na mão.
Soldado, para
 Ottoni, depois de observar a clareira: - Viajante, a quem procuras? Ottoni:
- Soldado! Peço-lhe que me leve imediatamente ao seu superior. O soldado e
Ottoni, que desce da besta Montanha, seguem a pé até um posto de comando
iluminado por tochas e uma grande fogueira. Ouve-se uma gritaria infernal -
o capitão pega um porco para matá-lo - e enquanto enfia o punhal no pobre
animal olha com um sorriso irônico para o soldado que se faz acompanhar de
Ottoni. O Capitão: - Vai falando soldado... O soldado, assustado com a
maldade do capitão, fica gago: - Desculpe capitão, mas é que este senhor...
Este senhor... Este viajante, este fazendeiro me pediu... O Capitão: - Vai
falando, enquanto eu mato esse porco rebelde, soldado!... Soldado: - É que
este senhor... Encontrei com ele... E ele me pediu... Capitão: - Tá bem! Tá
bom! Sai fora, imbecil! O porco morre e é aberto para se tirar os miolos.  O
soldado sai assustado e Ottoni, aproveitando a oportunidade, aproxima-se do
capitão que
 limpa as mãos de sangue num pano sujo. Ottoni: - Me chamo João e estava
cavalgando para minha fazenda quando a tempestade me pegou de surpresa a
algumas léguas daqui e acabei encontrando o seu soldado. Mas, diga-me: o que
os soldados e seu oficial fazem aqui nas terras do Barão de Pati? O Capitão:
- Quer dizer que o senhor é fazendeiro nesta região! Diga-me então: por
acaso vistes um escravo fujão passando por seu caminho? Ottoni: - Felizmente
não, pois ficaria apavorado. Dizem que quando um escravo foge, ele é capaz
de tudo para não voltar ao açoite e ao pelourinho. O Capitão: - Pois será um
prazer para nós dividirmos essa leitoa com o senhor vizinho do Barão. O
capitão aponta para leitoa que vai para o fogo. Esta leitoa foi ele que
gentilmente nos deu para que pegássemos o escravo fujão... Na certa o Senhor
João conhece o Barão de Pati?... Quer tomar um gole desta bagaceira?... São
gentilezas também do Barão, o Barão é um homem muito generoso. Ottoni: -
Pois, é claro!...
 Não! Obrigado. Tenho hoje ainda que chegar a minha fazenda... (O capitão
olha para Ottoni que continua a falar) Ela fica aqui perto! Amanhã iremos
todos ao encontro do Barão... Queira me dar licença... Boa noite a todos! Os
soldados estão todos atentos à fogueira, à leitoa assada, estão tão famintos
que não notam Ottoni pegar a rédea de sua besta Montanha, saindo, sem chamar
a atenção, na direção da mata escura. O dia amanhece. Os três agentes do
governo, acompanhados pelo Barão, trazem o escravo fujão acorrentado e
deparam-se, no acampamento, com os soldados dormindo depois do farto
banquete noturno. O Barão, aborrecido, atiça o cavalo em cima dos soldados
que acordam assustados. O capitão, que está deitado debaixo de um cortinado,
é acordado com um dos soldados caindo por cima dele. O Barão, para o
capitão, amarrotado e perfilado: - Seu idiota, agradeça a Deus eu ter sido
acordado por esses senhores que me trouxeram de presente esse escravo
fujão... Agente 1: - Capitão!
 O senhor por acaso viu, aqui pela mata, um homem montado numa besta? O
Capitão, olha para os seus soldados, faz alguns gestos escondidos, onde
pergunta, em silêncio, por onde andava o viajante desaparecido. Agente 1: -
Capitão! O senhor o viu, não é? Capitão: - Não! Quem esteve nos visitando
ontem a noite foi o João, um jovem fazendeiro amigo e vizinho do Barão. Ele
até a pouco estava por aqui... Agente 1: - Que João, qual nada! Era Ottoni,
tenho certeza! Ottoni, o deputado, o rebelde, o liberal mineiro, o exaltado
republicano... Vocês se deixaram enganar... Capitão! Só mais uma pergunta: -
Quanto o capitão recebeu do deputado para deixar ele fugir? Barão: -
Soldados, prendam o seu capitão e leve-o para a fazenda, algemado, ele tem
que me falar que história e essa de fazendeiro vizinho... Isto está me
cheirando a traição...Agente 2: - Barão deixa que nós cuidamos dele...Agente
3: - Republicano de merda! Barão, passando o seu cavalo em frente do agente:
- Ele pode ser um
 traidor, mas ainda é um soldado do Império, me dêem licença. Soldados! Ao
meu comando sigamos em marcha acelerada para a fazenda. Agente 1,
resmungando: - Sim senhor Barão de Pati, depois de acertarmos o deputado
rebelde, passamos por aqui...
  (Continua no próximo Folhetim)
   


Enviada por: "Jose Sette" <jsette_br em yahoo.com.br>

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