assunto: [CINEBRASIL] Sabor de...frutas tropicais!

autor: Dioclécio Luz / email autor: dioclecioluz em terra.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Terça Setembro 11 09:47:17 BRT 2007


CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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caro luís

eu tinha - feito vc - 200 coisas pra vc agora, mas acho que a conversa pode
ser ampliada uma vez que termos algo em comum.
acho que um filme, uma obra de arte (livro, música, software...) não pode
ser comparado com frutas e legumes.
isto pq quando vc compra uma fruta pode dividi-la com quem quiser, e ela é
somente uma - comeu aquela, acabou-se.
um filme se permite a cópia. e - em tese - a exibição (venda) em vários
meios (tv, cinema,...).
minha tese (que não é minha) é a seguinte: se um filme se paga na produção
pq não produzir cópias mais baratas e assim permitir que ele seja visto por
mais gente? aliás, eu não me considero rico, mas acho que pagar R$ 30 por um
dvd é muito. ou pagar valor equivalente por um livro sai caro. as revistas
(a veja não conta que a veja é panfleto) são caras. essas coisas - cultura -
são muito caras.
sim, não é com esmola que a gente vai resolver o problema do mundo. nem acho
que a gente deve dar esmolas. esse negócio de caridade, de sustentar a
miséria, é pro catolicismo - tô fora.
o que acho é que devemos dar um jeito de fazer com que aquele que tem poucos
recursos tenha acesso ao nosso trabalho, garantindo que eu seja remunerado
pelo meu trabalho, e não seja filantropia. 
não é fácil, sei. 
certa vez fiz um livrinho e escrevi nele: copyleft, permitida a cópia. aí,
viajei pra fazer uma oficina no interior da paraiba. quando cheguei lá
ninguém comprava meu livro porque tinha feito cópia. então percebi que eles
fizeram cópia não apenas porque era mais barato, mas principalmente porque
não tinha livraria perto. alguns chegaram pra mim e disseram, o original
(que é barato) é muito melhor que o livro. e compraram o original. 
talvez esta história particular (desculpe a vaidade por citar história
minha) não sirva pra nada. considere apenas como um exemplo das
possibilidades do que pode acontecer neste mundo. no fim confesso que fiquei
feliz porque essa gente não tinha como conseguir o livro (o primeiro que
surgiu virou raridade e alimentou a clonagem) mas usando a cópia teve acesso
a ele. imagine se eu não permito a cópia e me deparo com aquilo ali. na
verdade, já autorizei a cópia no próprio livro sabendo que poderia acontecer
coisas como aquela.
quanto ao cinema. ora, cinema não existe neste lugar. se depender da lei
jamais poderão assistir um filme que não seja na tv.
pergunto: que mal há para uma produtora quando em quibocó das quebradas, no
interior do estado mais pobre, alguém faz cópia do filme?
enfim, existem meliantes na história, mas também existe a necessidade humana
da arte e cultura.

quanto as leis.
certa vez um juiz federal (paulo fernando silveira, de mg) me ensinou: a
função do judiciário não é seguir as leis, mas fazer justiça.
portanto, existe uma diferença muto grande entre a lei e a justiça. como
também existe diferença na leitura da lei. não há nada de absoluto nisso.
mas, voltando as leis...
não existe nenhuma garantia de que as leis existem e são feitas para servir
a maioria da população. considere quem faz as leis. considere o processo com
que se elegem os parlamentares, os fazedores de leis. vc confia neles? vc
confia em que eles farão leis de interesse público?
não. não exageremos. nem todos os parlamentares atuam por interesse próprio.
existem aqueles afinados com o interesse da nação. mas são estes que fazem
as leis do país? 
aliás, a república brasileira é uma piada. faço uma pergunta idiota: quem
faz as leis no brasil? aí vc responderia: o legislativo, claro. e eu diria:
errado. quem faz leis no brasil, desde os tempos de fhc até os de lula é o
executivo. pouca gente sabe, mas 86% das leis aprovadas nos últimos anos
foram criadas pelo executivo. 
a piada é maior pq os tecnocratas petistas do executivo ouviram algum
poderoso lá dentro falar em principios republicanos e passaram a repetir
feito papagaios de madame. em tudo que é fala (palestra, debate) estavam os
psicitacídeos petistas citando os princípios republicanos que norteam a
pátria... sabe aquele discurso inútil de puxa-saco e carreista?...
pois é. 
tenho acompanhado no meu trabalho o fazimento das leis. por isso, quando
alguém fala em obedecer as leis, eu cito a fala do juiz paulo fernando
silveira, e lembro de como se fazem as leis. 
esse negócio de fazer justiça é complicado. por exemplo, porque os grandes
ladrões demoram poucos dias na cadeia? porque tem grana, claro. um bom
advogado consegue provar que a lei é asism, mas não é bem assim, e o seu
cliente, sabe como é, data vênia, merece a liberdade. e vem um habeas
corpus. mas, habemos justiça? 
abs.
dioclécio




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> 
> 
> Dioclécio,
> 
> 
> Você escreveu:
> 
> "[...]mas vou considerar sua indignação. pra vc é roubo.
> peço que saia um pouco desta visão de produtor, e olhe o mundo aqui fora. e
> veja quantas pessoas vendem e quantas compram dvds e cds piratas. se são
> ladrões, como vc diz, deveriam ser presas.[...] vc pediria ao policiail para
> prender todo mundo? aliás, vc pode fazer isso. qq um de nós pode fazer isso.
> comprar ou vender é crime.[...]
> 
> Entendo tudo o que você escreveu. Sou solidário com o que você escreveu. Eu 
> não vou olhar o mundo aqui fora. Eu vivo no mundo aqui fora.
> 
> Quanto ao que eu disse que piratear é crime, pode parecer estranho o que eu 
> escrevi anteriormente. Soa estranho. Eu sei disso.
> 
> Imagine um dono de uma quitanda dizendo mais ou menos o que eu disse: que se 
> alguém pegar as frutas dele sem pagar, então este alguém estará cometendo um 
> crime.
> 
> Até ai todos de acordo. Pegou sem pagar, é crime. Mas então, imaginemos que 
> ao redor desta quitanda existam velhos e crianças abandonados e famintos. 
> Como vai soar agora a voz do quitandeiro ?... Ficaremos todos nós revoltados 
> quando o quitandeiro disser que pegar fruta sem pagar é roubo, é crime.
> 
> Quando eu digo que piratear é crime, sei que tecnicamente estou fazendo uma 
> afirmação correta. É crime mesmo. Não tem como ter dúvida. Mas quando o 
> cenario se amplia, quando os famintos são tantos, minha afirmação pode até 
> causar revolta.
> 
> Mas, piratear é, no mínimo, desobedecer a Lei. Se a Lei está errada, que se 
> modifique a Lei. Não vou consertar o mundo disponibilizando meu filme 
> gratuitamente. Não penso que consertarei o mundo atirando dinheiro pela 
> janela. Agindo assim não resolverei o problema social e ainda acabarei 
> arrumando um problema para mim. Será apenas uma "esmola", uma bondade que 
> praticarei para me sentir com a consciencia tranquila. E posso até estar 
> ajudando a perpretar um sistema injusto.
> 
> E, no caso de disponibilizar gratuitamente um filme meu, eu não estarei 
> jogando dinheiro pela janela. Estarei jogando TRABALHO pela janela, o meu 
> trabalho. Considero o trabalho a coisa mais sagrada deste mundo. E se eu 
> trabalho e produzo um filme quero que exista uma troca. Eu te dou filme, 
> você me dá sabonete, alimentação ou o que for. É natural que eu exija uma 
> troca, nem que seja de forma parcial. Porque senão seria injusto também. 
> Porque senão amanhã eu não vou conseguir fazer mais filmes. Porque senão eu 
> não sobrevivo.
> 
> Mas, Dioclécio, não discordo de você. Passo a dividir com você a sua 
> indignação perante este mundo cheio de incertezas e de desigualdades. Eu 
> também me sinto indignado. Compartilhamos da mesma indignação. Mas acho que 
> se o quitandeiro doar suas frutas, ele não terá ajudado em nada para 
> modificar a realidade em que vive. Não terá resolvido o problema social e 
> nem terá resolvido o problema dele.
> 
> Eu sair por aí dando meu trabalho de graça não solucionará os nossos graves 
> problemas sociais. O que não significa que devemos todos permanecermos 
> impassíveis. Ao contrário, acredito que devemos desenvolver outras formas de 
> luta - formas eficientes - para acabar ou pelo menos reduzir tanta injustiça 
> social e tanta desigualdade.
> 
> abraços
> Luís Bacchi
> 
> ----------------------------------------------------------------------------
> ---------------------------------
> 
> será que toda essa gente nas ruas é bandida? tudo ladrão? é assim que devo
> tratar os caras que vendem dvd pirata? devo tratar como bandido quem compra?
> vc acha que essa gente merece isso?
> não, não estou apelando para espirito cristão (não sou cristão, nem
> muçulmano,...). peço para olhar pra essa gente nas ruas. só isso. se acha
> que são criminosos, bandidos, ladrões, mande a polícia prender, botar na 
> cadeia.
> esta é a realidade.
> metade da população brasileira economicamente ativa é camelô. não tem
> carteira assinada, nada. aliás, as vezes eu tô numa praia de recife e fico
> pensando: "por que esse cara, ao invés de passar o dia vendendo xampu ou
> amendoim cozido, não vai roubar um carro, assaltar um decente aí, tirar
> dinheiro dos banqueiros? como ele consegue ser honesto, quando tanta coisa
> no brasil ensina pra gente que o bacana é ser desonesto, que os desonestos é
> que ficam ricos".
> ainda bem que estes camelôs não escutaram o diabo que mora em mim.
> o trabalho de um diretor não é roubado quando alguém faz uma cópia e vende.
> tenho absoluta certeza disso. este povo que está comprando o dvd é
> exatemente aquele que não tem condições de comprar seu trabalho. ele, o
> autor, ganha pq vai se tornar conhecido entre outros. ele ganha com a venda
> do dvd para aquele público x e não para os da camada y, que nunca irão
> conhecer sua obra, a não ser pela televisão - se o filme tiver parentesco
> com alguma boa emissora.
> 
> o livro, como explica artigo trazido por ivana bentes, também lucra com a 
> cópia.
> de qq modo, a gente tem que pensar na questão tecnológica (tudo se copia
> facilmente) e no fato de que se eu compro um filme eu não estou alugando um
> filme, mas e tornando proprietário do produto - portanto tenho (teria)
> direito de copiar e presentear quem eu gosto.
> a discussão não se encerra aqui.
> abs.
> dioclécio
> 
> >
> >
> > A pirataria sobre filmes tende a aumentar. Não consigo imaginar como
> > controlar isso. Dentro de poucos anos a televisão e a internet se
> > encontrarão em um único aparelho (TV + micro). Quero ver surgir uma
> > tecnologia que assegure direitos autorais...não vai ser fácil encontrar 
> > uma
> > saída para preservar os direitos autorais. Mas alguma solução tecnologica
> > deve ser encontrada.
> >
> > Paraleleamente a isso, imaginemos que um longa-metragem seja pirateado a
> > exaustão. A seguir outros. Depois outro e mais outro. E a seguir vários. E
> > então todos os seguintes.
> >
> > A primeira consequência é de ordem prática: não haverá mais produção.
> >
> > Imaginemos que alguém realize e invista recursos financeiros em um
> > longa-metragem. A seguir exibe pelo mundo afora e não recebe nada por 
> > isso.
> > A consequência é uma só: em um segundo momento ninguém mais produzirá 
> > filme
> > algum. Acabou. Não tem muito o que filosofar em cima disso. Não adianta.
> >
> > A segunda consequência é de ordem ética. Se um cineasta cria e realiza um
> > filme isso é uma obra dele. Ninguém pode roubar uma obra que alguém criou 
> > e
> > sair por aí faturando em cima do trabalho alheio. É como se um professor
> > universitário desse aula durante um mês e depois alguém recebesse o 
> > holerith
> > dele. É roubo. Então, se quisermos uma maior distribuição de renda, que 
> > ela
> > seja de outra forma e não na forma de roubo.
> >
> > A distribuição de renda deve ser feita através da distribuição de renda. E
> > não roubando o trabalho do cineasta. E não roubando o trabalho de qualquer
> > pessoa de qualquer outra profissão. Repito: a distribuição de renda deve 
> > ser
> > feita através da distribuição de renda.
> >
> > abraços
> > Luís Bacchi
> >
> >
> >
> > 
> 
> 
> Enviada por: "Luís Bacchi" 
>
> 
>

Enviada por: "Dioclécio Luz" <dioclecioluz em terra.com.br>

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