
autor: Adnor Pitanga / email autor: nycadnor em hotmail.com
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data: Sexta Fevereiro 1 15:24:05 BRST 2008
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Amigos,
Recebi, via e-mail, um artigo escrito pelo jornalista e cineasta Jorge
Oliveira falando sobre investimento público vs. o filme "Meu Nome Não é Johny".
Não ví o filme e, portanto, não posso opinar, mas como muitos de vocês devem
ter visto filme, segue o texto para vocês tomarem conhecimento e, caso
queiram, comentar. Tomei a iniciativa de mandar esse texto porque tenho
visto com muita frequência os temas abordados nele discutidos aqui na Lista.
Abraço,
Adnor
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Indigência cultural
Jorge Oliveira*
Depois de sair da sessão do bizarro Meu Nome Não é Johnny, distribuído pela
Globo Filmes, fiquei com uma vontade danada de abrir uma boca de fumo na
primeira esquina evidentemente com dinheiro da Petrobrás e do BNDES,
empresas públicas, que bancaram o filme, já assistido por mais de meio
milhão de pessoas em todo o país. Com o dinheiro arrecadado com a venda da
droga queria ser igual ao João Guilherme Estrela, o traficante internacional
de cocaína, em cuja vida o filme se baseou: viajar muito pelos países da
Europa, comer do bom e do melhor, freqüentar a elite do Rio de Janeiro,
badalar com as melhores mulheres e viver na boa vida durante anos. Depois de
tudo isso, ser condenado a dois anos de prisão é café pequeno.
Meu Nome Não é Johnny é uma demonstração cabal da indigência cultural a que
chegou o Brasil do PT. Patrocinado pelo BNDES, Petrobrás e pela própria
Ancine, a Agência de Cinema, o filme dirigido e roteirizado por Mauro Lima é
um convite ao tráfico, um chamariz para os jovens que vivem enfiados nas
drogas pensando numa vida cheia de encanto como foi a de João Guilherme, o
traficante internacional que virou primeiro livro, escrito por Guilherme
Fiúza, e agora filme, campeão de bilheteria, num país em guerra permanente
contra o tráfico de drogas.
O filme, cujo trailer é mostrado em horário nobre pela TV Globo, mostra um
traficante ingênuo, bonzinho, que não usa armas no mundo do crime, com pais
tolerantes e que vive harmoniosamente na classe média do Rio de Janeiro,
vendendo cocaína como quem vende um inofensivo acarajé à beira-mar.
A Globo Filmes, das organizações Globo, é a distribuidora do filme. E para
fazê-lo campeão de bilheteria repete o trailer no horário nobre da TV e
ainda abre espaços generosos no seu tele-jornal, a exemplo do que ocorreu no
Jornal da Globo do último dia 15 (quarta-feira), quando mostrou os
bastidores das gravações e uma entrevista com o principal consultor, o
próprio João Guilherme, o ex- traficante agora produtor musical, num
ambiente risonho e descontraído no set.
O filme relata a vida desse meliante, que quando foi preso em flagrante em
1995 com pacotes de cocaína que seriam levados para o exterior, arrepende-se
diante de uma juíza e, orientado por seu advogado, primeiro se diz inocente
para depois assumir sozinho a responsabilidade pelo comércio da droga,
bancando o herói das telas para livrar seus comparsas no crime.
A interpretação de Selton Mello - a única coisa boa do filme - emociona a
muitos no cinema. Uma senhora ao meu lado soluçou ao assistir a cena em que
o bandido pede perdão à sociedade pelo seu envolvimento no tráfico, belo
truque de cena para justificar os milhões de reais das empresas públicas que
caíram no caixa da produtora para financiar o filme.
Não se trata aqui de censurar a criatividade de ninguém nem impedir que as
pessoas desenvolvam suas produções por mais imbecilizadas e idiotizadas. É
direito de cada um em um país livre e democrático. Discute-se aqui se é
correto empresas públicas como a Petrobrás, o BNDES, e a própria Ancine
patrocinarem películas como essas sem nenhum cunho social, cujo cenário, o
Rio de Janeiro, é o maior foco de drogas do país, onde policiais e
traficantes se matam diariamente numa guerra sem fim, onde crianças morrem
por balas perdidas e os bairros pobres são reféns de traficantes e policiais
corruptos.
Filmes como esses devem ser produzidos com recursos próprios. E dinheiro é o
que não falta nos cofres das Organizações Globo. É assim que vive a
indústria cinematográfica no resto do mundo. Nos Estados Unidos, na Europa e
na Índia os produtores bancam suas próprias histórias e apostam nas
bilheterias. O que não se pode é o que ocorre hoje no Brasil: as empresas
públicas financiam o filme e os produtores privilegiados - um limitado
grupo, muitos ainda filhotes da velha e famigerada Embrafilme - ainda
faturam nas bilheterias ganhando nas duas pontas. Filmes pagos com dinheiro
público deveriam ser exibidos obrigatoriamente em comunidades carentes e
cópias em DVDs distribuídas às escolas públicas, especialmente aqueles que
educam.
Meu Nome Não é Johnny não tem esse propósito. Não se preocupa em nenhum
momento em mostrar como é nocivo o Brasil das drogas. O roteiro passeia
pelos locais mais bonitos das cidades do Rio, Barcelona e Veneza
fotografando um traficante vivendo no apogeu financeiro, sempre ao lado de
belas mulheres. Exclui as favelas como pontos de drogas e glamouriza o
tráfico, levando-o para o asfalto num comércio feito exclusivamente por
jovens da classe média do Rio, que vivem em constantes badalações na Zona
Sul. O diálogo entre os pais e o filho traficante é de uma pobreza
irritante, texto extraído do próprio livro de Guilherme Fiúza.
Há dias o diretor Cacá Diegues estava lamentando que a Petrobrás deu as
costas para um projeto seu de levar às favelas oficinas de cinema. Outros
diretores iniciantes queixam-se do critério de aprovação de projetos nos
órgãos públicos do governo, acusando de existir uma panelinha para favorecer
as mesmas produtoras e os mesmos diretores do Rio e de São Paulo numa
escolha viciada e de cartas marcadas. A julgar pelo Meu Nome Não é Johnny, a
indigência cultural no Brasil ainda vai patrocinar outros Johnnys por aí
afora por força do lobby das grandes produtoras.
Não estranhe se o Fernandinho Beira-Mar for à nossa próxima atração.
* Jornalista e cineasta
Enviada por: Adnor Pitanga <nycadnor em hotmail.com>
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