assunto: [CINEBRASIL] Fw: Beto Almeida: Em busca da soberania informativo-cultural

autor: Arnaldo Carrilho / email autor: arnaldocarrilho em yahoo.com.br     RESPONDER A ESTA MENSAGEM
data: Terça Dezembro 15 21:13:13 BRST 2009


CINEMABRASIL-Lista debatendo Tecnica,Linguagem, Mercado do Cinema Brasileiro
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Embora discorde do conceito de TV Pública do A., eis um magnífico texto do
Beto, divulgado agora, por ocasião desta I CONFECOM.
Um beijo do
AC
 
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--- On Tue, 15/12/09, beatrice elo <beatrice.lista em elo.com.br> wrote:

From: beatrice elo <beatrice.lista em elo.com.br>
Subject: Fw: Beto Almeida: Em busca da soberania informativo-cultural
To: Undisclosed-Recipient:;@mta4.elo.com.br
Received: Tuesday, 15 December, 2009, 5:58 PM

 
----- Original Message ----- 
From: Dani Tristão 
To: tribuna_da_internet em yahoogrupos.com.br 
Sent: Tuesday, December 15, 2009 12:32 PM
Subject: Beto Almeida: Em busca da soberania informativo-cultural

Beto Almeida: Em busca da soberania informativo-cultural

Atualizado em 14 de dezembro de 2009 às 22:57 | Publicado em 14 de dezembro
de 2009 às 22:34

A Confecom e a soberania informativo-cultural

Será aceitável do ponto de vista da soberania-informativa um país como o
Brasil possuir salas de cinema em apenas 8 por cento dos seus municípios? É
tolerável um país com inequívoco potencial para posições de liderança no
cenário internacional registrar taxas tão indigentes de leitura de livros,
jornais e revistas, inferior à registrada na Bolívia, sendo tão pobre também
no número de bibliotecas e livrarias? A Confecom é a oportunidade para tomar
consciência de nossas vulnerabilidades, dimensionar com realismo nossa
imensa dívida e iniciar a construção de um um modelo democrático, brasileiro
e soberano de informação. O artigo é de Beto Almeida.

Beto Almeida, na Carta Maior
"Uma notícia tá chegando lá do interior; não deu no rádio, no jornal, nem na
televisão"
Notícias do Brasil - Milton Nascimento/ Fernando Brandt

Podemos considerar plenamente soberano um país que tenha o seu setor
audiovisual invadido em 95 por cento por produção estrangeira pesadamente em
sintonia com interesses e valores destrutivos, imperiais e anti-nacionais?

Pode o Brasil pretender e alcançar melhorar seu desempenho no jogo pesado do
poder mundial - como está tentando legitimamente - sem dispor de soberania
plena sobre seu sistema de satélites, hoje nas mãos de uma empresa
desnacionalizada (Embratel) e controlada por um país que está instalando
bases militares na América do Sul, além da Quarta Frota?

É admissível um país possuidor de descomunais riquezas minerais e de um
tesouro de biodiversidade - despertando cobiças igualmente colossais e
sinistras num mundo marcado pelo intervencionismo de grandes potências -não
dispor de um sistema de comunicação nacional voltado para a defesa da
brasilidade, dos interesses nacionais, educativo, informativo e humanizador?

Será aceitável do ponto de vista da soberania-informativa um país como o
Brasil possuir salas de cinema em apenas 8 por cento dos seus municípios? É
tolerável um país com inequívoco potencial para posições de liderança no
cenário internacional registrar taxas tão indigentes de leitura de livros,
jornais e revistas, inferior à registrada na Bolívia, sendo tão pobre também
no número de bibliotecas e livrarias?

Vulnerabilidade informativo-cultural

Na idade da mídia, na idade do conhecimento, é decisivo que temas tão
estratégicos para a emancipação de um povo e de uma nação recebam na
Conferência Nacional de Comunicação que se avizinha o tratamento adequado
como questão de soberania informativo-cultural. Assim, nesta primeira
Confecom - convocada por um presidente que sintetiza em sua própria história
de vida a luta de um povo por soberania informativo-cultural - a sociedade
brasileira está inapelavalmente desafiada a descobrir, criativamente,
caminhos eficazes para libertar seus sistemas de informação e comunicação do
controle imposto por interesses rebaixados por um vale-tudo do mercado
cartelizado e controlados por ideologias, modelos e valores de países
intervencionistas e expansionistas! Estamos confrontados com a obrigação de
construir um modelo de comunicação capaz de enfrentar a imensa
vulnerabilidade informativo-cultural que pesa como uma ameaça à Nação
Brasileira.

Partindo do princípio que só se pode considerar livre um povo efetivamente
culto, constata-se estarmos diante de uma gigantesca tarefa de iniciar nesta
I Conferência Nacional de Comunicação, uma caminhada para tentar fazer com
que finalmente a comunicação no Brasil cumpra, pelo menos o que define a
Constituição Federal. O capítulo da Comunicação Social da Constituição, se
cumprido plenamente, já seria uma grande transformação comunicativa, pois
prevê a proibição de monopólio e oligopólio, a regionalização, a finalidade
educativa e informativa, e, especialmente, a complementaridade entre
sistemas público, privado e estatal de comunicação, o que felizmente vemos
estar sendo construído por nossos hermanos argentinos, com a aprovação de
uma nova lei democrática de comunicação, que democratiza até mesmo a
exibição de futebol na TV.

Aqui, as tvs públicas estão proibidas de transmitir futebol. E as partidas
se realizam muito tarde para um povo trabalhador, depois das telenovelas...
o que é imposto por uma trama de interesses não públicos.

A Confecom e os dois projetos

As importantes mudanças comunicativas em curso na América Latina,
apresentadas falsamente pelos magnatas da mídia e pelo mais intervencionista
dos países do mundo como se fossem formas de censura estatal, realmente são
o pano de fundo de tudo o que se está discutindo pelo Brasil afora após a
realização das Confecons estaduais. Algumas delas exemplarmente
televisionadas pelas tvs do campo estatal, como a paranaense, transmitida ao
vivo pela TVE do Paraná e a de Minas, transmitida também ao vivo pela TV
Assembléia, ambas em sinal aberto. Fica evidente o desafio para que também a
TV Brasil e outras, seguindo o feito exemplar das duas tvs estatais, também
transmita as conferências que ainda faltam realizar e a própria Confecom
Nacional.

Estes singelos, porém importantes exemplos do Paraná e de Minas, estão
sincronizados com a disputa de dois projetos em curso na América Latina. De
um lado movem-se os poderosos interesses do grande capital pretendendo
introduzir maiores facilidades para as grandes empresas oligopolistas da
mídia mundial, demolindo ou flexibilizando os instrumentos de defesa do
estado porventura ainda vigentes nos países da periferia.

Aquilo que pretendiam com a Alca, projeto derrotado pelos povos que
desenharam um novo mapa geopolítico latino-americano. Mas, continuam
tentando fazer de outro modo. Ainda nos querem impor a Doutrina Monroe,
agora para a era digital. Historicamente, não pode o império deixar de ser
império. Registre-se que Obama é Prêmio Nobel da Paz mas ameaça militarmente
o Irã, exige que a China - maior produtor mundial de computadores - renuncie
à sua capacidade de concorrência, instala sete bases militares na Colômbia,
com evidente capacidade operacional para todo o continente, como adverte,
com lucidez, o Ministro Samuel Pinheiro Guimarães. Neste quadro de sombras,
o Brasil, nem empresa nacional de satélites possui mais: FHC
internacionalizou a Embratel. Os movimentos intervencionistas visando
expandir a ocupação de mercados cada vez mais anexados à produção e à
ideologia dos EUA, também são parte essencial do quadro de vulnerabilidades
ideológicas em que ocorre a Confecom. Ainda que isto ainda não esteja
explícito plenamente

Desnacionalização

Empresas transnacionais querem internacionalizar, desnacionalizar e
obviamente cartelizar mais e mais a comunicação no Brasil. O Projeto de Lei
número 29, em tramitação na Câmara Federal, é um exemplo claro dos
movimentos intervencionistas imperiais para retirar qualquer restrição ou
defesa para livre operação dos oligopólios internacionais na tv por
assinatura e também para que as telefônicas transnacionais - com suas
sinistras ramificações de acionistas e anunciantes que conduzem até à
indústria bélica - possam atuar na televisão local, em todas as modalidades.
Para confundir os distraídos e ingênuos discutiram "cotas de produção
nacional", quando deveria ser o contrário.

É indispensável que o Brasil tenha um instrumento de estado capaz de
sustentar a soberania informativo-cultural dos brasileiros, como também
restrições a esta deletéria invasão estrangeira de ideologias e valores
imperiais, sustentados por grandes empresas estadunidenses, muitas delas
localizadas no epicentro da crise financeira internacional e que,
impunemente, continuam a beneficiar-se da emissão de dólar sem lastro, papel
pintado, com o qual bancam projetos de renovada ingerência na América Latina.

Fazem parte deste projeto, entre outras, ações como a do Usaid, financiando
praticamente a fundo perdido, Ongs , jornalistas e intelectuais
latino-americanos para a defesa dos valores estratégicos do Departamente de
Estado dos EUA sempre entrelaçados com os grandes interesses das empresas
norte-americanas, como denunciam a advogada norte-americana Eva Golinger e o
jornalista canadense Jean-Guy Allard. Essas operações são ampliadas agora
pela recente determinação do programa radiofônico oficial do governo dos
EUA, a "Voz da América", que decidiu fortalecer sua presença na América
Latina, convocando jornalistas para cursos e estabelecendo um formato de
rede com outras 300 emissoras de rádio na região.

Impedir os câmbios

O objetivo é impedir a transformação comunicativa em curso, cujo significado
mais preciso é o da recuperação dos espaços públicos midiáticos. Venezuela
recupera o espaço radioelétrico como um bem público antes seqüestrado por
oligarcas da comunicação vassalos da ditadura petroleira norte-americana e
começa a fortalecer sua tv e rádio públicas, a comunicação comunitária é um
fator democrático e soberano tangível na pátria de Bolívia, instala-se uma
poderosa indústria de cinema, a "Villa del Cine", clássicos da literatura
internacional como "Dom Quixote", recebem tiragem na casa dos milhões e são
distribuídos gratuitamente. Até "Contos", de Machado de Assis, mereceu na
Venezuela uma tiragem de 350 mil exemplares, quando aqui no Brasil a tiragem
padrão de livros é de apenas 3 mil exemplares. E nossa indústria gráfica tem
uma capacidade ociosa de 50 por cento....

As mudanças percorrem os Andes, e a Bolívia forma uma Rede de Rádios dos
Povos Originários, lança um jornal público, "Cambio" que, em apenas seis
meses de vida, já vende tanto quanto o maior jornal privado que tem décadas
de privilégios de mercado, nas quais apoiou todos os numerosos golpes de
estado no país. No Equador a novidade avança pela TV e Rádio públicos,
cria-se um Conselho de Comunicação, há uma revisão dos critérios para novas
concessões atacando os privilégios para as oligarquias tradicionais, que se
consideravam portadoras de algum "direito divino" para comandar a
radiodifusão. A Argentina quebra o monopólio do Grupo Clarim, reestrutura,
fortalece e qualifica a TV e Rádio públicos fundados na era peronista,
reservando espaços iguais na radiodifusão para o setor privado, o setor
público-estatal e também para a sociedade organizada, que terá direito a um
terço do fazer comunicativo. Nicarágua e Uruguai também fortalecem
legislações que expandem e qualificam o papel da comunicação pública. Estas
mudanças estão na mira do império...

É neste pano de fundo que ocorre a Confecom no Brasil, com a oposição da
Sociedade Interamericana de Prensa, entidade fundada pela CIA, e com seus
jornais afiliados repetindo, esbaforidos, que "vem aí a censura estatal",
além de publicarem todo e qualquer tipo de ofensas aos governantes eleitos
pelo voto das grandes massas pobres, chamando Evo Morales de
narcotraficante, Hugo Chávez de psicopata e a Lula de analfabeto e outras
baixarias. Se dissessem "cuidado, podemos perder nossos privilégios", ou "a
ditadura de mercado sobre a mídia está em risco", ou "vamos ter que aceitar
o absurdo de dividir a comunicação com o setor público e a sociedade",
talvez estivessem divulgando possibilidades mais realistas sobre o que está
verdadeiramente em curso, mesmo que ainda muito embrionariamente. E com
barreiras imensas a serem transpostas. Se Cristina Kirchner teve maioria
parlamentar suficiente para aprovar uma lei democrática de comunicação, o
mesmo não ocorre aqui no Brasil, pois a heterogênea base aliada de Lula
possui forte e inconfiável presença de radiodifusores.

Ainda com todas estas evidentes ações de intervenção dos EUA contra as
mudanças em curso ou contra aquelas que apenas começam a ser desenhadas,
como no Brasil, há quem defenda, inclusive no chamado campo progressista,
exemplos de práticas de comunicação norte-americanas, ao invés de buscarmos
elaborar as linhas mestras para construir nosso próprio modelo de informação
e comunicação, presidido pelo princípio da soberania informativo-cultural.

Uma voz para o Brasil

Será que um país com a experiência sócio-histórica acumulada que tem o
Brasil, com pensadores do porte de um Álvaro Vieira Pinto, Câmara Cascudo,
Roquette Pinto, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Josué de
Castro e tantos e tantos outros, não teria também a condição de estruturar
um sistema comunicativo livre destes padrões e ingerências nefastas do
intervencionismo neocolonial? Não há clareza quanto aos objetivos
avassaladores das políticas comunicativas emanadas pela Casa Branca para o
mundo e em particular para a América Latina? Não se pratica lá uma das mais
sofisticadas ditaduras midiáticas do mundo, capaz até de seduzir e enganar
toda uma sociedade para que apoiasse a invasão do Iraque em base à mentirosa
tese das armas de destruição em massa, divulgada criminosa e incessantemente
pelo sistema de comunicação dos EUA, inclusive o público, com o que se
cometeu um sanguinário massacre?

E ainda há quem apresente o sistema de rádio público de lá como modelar...
..quando estão construindo um consenso interno para atacar nuclearmente o
Irã. Basta dizer que todo o sanguinário intervencionismo dos EUA no mundo
foi sustentado por sua mídia, inclusive sua comunicação pública, o que nos
leva a afirmar que o sistema comunicativo estadunidense está entre os mais
anti-democráticos do planeta, sobretudo se considerarmos a capacidade que
possui para submeter a voz e os direitos históricos dos povos no mundo.

Carnaval, Rede, Câmara Cascudo, Villa-Lobos...

O povo brasileiro foi capaz de desenvolver inúmeras experiências
sócio-culturais altamente comunicativas. Mencionemos a inteligência da
invenção da rede lembrada por Câmara Cascudo, ou dos Coros Orfeônicos de
massa criados pelo gênio de Villa-Lobos durante a Era Vargas. Ou do
Cine-Educativo de Roquette Pinto e Humberto Mauro, nesta mesma fase de nossa
história, quando a Rádio Nacional chegou a ser a quarta mais potente
emissora do mundo, emitindo em 4 idiomas, alcançando todos os continentes e
tendo entre seus cronistas intelectuais como Manuel Bandeira, Carlos
Drummond de Andrade, Nestor de Hollanda, Cecília Meirelles etc.
Tão significativa foi aquela experiência comunicativa da emissora estatal
que Carmem Miranda chegou a ser das principais cantoras nos Eua e a música
"Aquarela do Brasil" a canção mais tocada no mundo em certo momento.
Produziu-se importante publicação de integração cultural panamericana como
"Pensamento da América", retratada no interessante livro "América aracnídea".
E nem é preciso discorrer muito sobre esta exuberante expressão de
comunicação de alcance planetário que é o Carnaval Brasileiro. Se lembrarmos
que tivemos uma Rádio Mauá - a Emissora do Trabalhador - com razoável
participação de segmentos sindicais e que fomos capazes de criar o programa
como o "Voz do Brasil" quando o país era rural, quando as taxas de leitura
eram ainda mais indigentes que as de hoje, um programa que chegava e ainda
chega a todos os grotões levando informação relevante dos poderes públicos e
que hoje está ameaçado pelos magnatas da comunicação que preferem o Voz da
América... constatamos que podemos aproveitar parte importante da nossa
história.
A Confecom é a oportunidade para tomar consciência de nossas
vulnerabilidades informativo-culturais, dimensionar com realismo nossa
imensa dívida e para iniciar a construção de um novo rumo a seguir, um
modelo democrático , brasileiro e soberano de informação.

Ousar inventar, romper padrões

Como ensina Álvaro Vieira Pinto: na nossa história, todas as vezes em que os
brasileiros tentaram ousar e inovar, quebrando padrões e modelos impostos
das metrópoles, como os quebrados pelo o gênio de Villa-Lobos, sempre
surgiam os "conselheiros", os "especialistas" dizendo que tudo já estava
feito, que não há nada de novo a fazer, que bastava seguir o caminho
traçado....por eles. Foi assim que implantamos e desenvolvemos sob as asas
sombrias da ditadura e posteriormente da tirania do mercado cartelizado, um
sistema comercial de comunicação verdadeiramente embrutecedor, basicamente
seguindo o modelo dos EUA.

Se Vargas tivesse dado ouvidos aos "especialistas" dos EUA que juravam que
no Brasil não havia petróleo, hoje a Petrobrás não seria o colosso que é e
nem teria a mais avançada das tecnologias de prospecção marítima de
petróleo! Nem estaríamos a discutir a soberania sobre o petróleo pré-sal!!!
Inovamos, ousamos, criamos, inventamos lá atrás! Se fomos capazes de gestar
um espírito inovador e criativo como o de Santos Dumont, desdobrado
posteriormente na construção de uma indústria aeronáutica própria como a
Embraer - embora internacionalizada na Era da Privataria - fica claro que
temos sim, como país e como povo, a capacidade de construir um modelo também
inovador de comunicação.
Aproveitar o que se fez de útil no passado, readaptar para os desafios da
contemporaneidade, mas, sobretudo, retomando o caminho de dotar o estado de
instrumentos capazes de realizar políticas públicas soberanas e
estratégicas, como as praticadas por muitos países que não se avassalam e
que por isso avançam na elevação informativo-cultural de seus
povos.Venezuela, Equador e Bolívia já derrotaram o analfabetismo. A mídia
atuou favorávelmente a esta conquista. Aqui o sistema midiático, com o mais
profundo desprezo, expande a dívida informativo-cultural que esmaga o nosso
povo.

Rádio Mauá: a Emissora do Trabalhador

Sim, há tudo de novo por ser feito. Desde a recuperação dos espaços públicos
midiáticos para sua verdadeira dimensão e missão públicas, a começar pela
própria redistribuição do espectro radioelétrico, conforme prevê a
Constituição, na forma tripartite que nunca foi regulamentada, como também
para preservar o que é essencial, como o programa Voz do Brasil. Ou ainda a
recuperação daquilo que foi importante e que foi demolido, como a
experiência da Rádio Mauá.
Que tal se a Rádio Mec em Brasília, hoje apenas encarregada de repetir o
quase imperceptível sinal da Rádio Mec Rio - portanto, subutilizada - fosse
destinada à recuperação da histórica Rádio Mauá, remodelada, potencializada,
para que alcançasse todo o território nacional e tendo parte de sua
programação elaborada por uma Fundação de Comunicação do Trabalhador, gerida
democraticamente e de modo colegiado pelas centrais sindicais? A emissora já
existe, hoje está sub-aproveitada, bastaria uma decisão de governo. Seria
uma nova emissora do trabalhador, voltada para o mundo do trabalho, para
educar profissionalmente, ecologicamente, para o consumo responsável, para a
agroecologia, para conceitos cidadãos de saúde, para educação estética, para
o trânsito civilizado, podendo sim fazer um grande diferencial.

Recursos para dotá-la de capacidade técnica e de quadros não faltam, já que
são fartos, por exemplo, os recursos públicos dirigidos para o Telecurso
Segundo Grau, programa escondido de seu público alvo em transmissões pela
madrugada, desrespeitando os contribuintes que pagam por sua produção.

As propostas aprovadas pelas conferências estaduais de comunicação indicam
primeiramente, pelo seu volume e caráter repetitivo, o rompimento, o
transbordar de algo que está engasgado, está represado. Mas, indicam também
que ainda falta uma política mais realista para que se possa aproveitar a
oportunidade da primeira Confecom para avançar naquilo que é indispensável e
que, em boa medida, depende da organização das forças políticas
progressistas em torno de uma tática eficiente. Que consiste inicialmente em
avaliar atentamente que Lula não conta com a maioria parlamentar que
Cristina Kirchner, Rafael Correa, Hugo Chávez e Evo Morales possuem para
fazer as mudanças que estão operando na comunicação em seus países.

O significado das 59 propostas da Secom

As 59 propostas à Confecom apresentadas pelo governo Lula, por meio da
Secom, indicam um importante grau de sintonia entre governo, amplas parcelas
do movimento sindical-social e segmentos anti-monopolistas do empresariado.
Muitas das propostas da Secom podem perfeitamente ser subscritas pelos
delegados da Sociedade Civil, são coincidentes.
Do gesto de convocação da Confecom por Lula à apresentação destas 59
propostas está a comprovação de que há condições reais para que a
Conferência vá além da produção de um documento a ser enviado e
posteriormente engavetado pelo Congresso Nacional, que é pressionado pela
maioria dos magnatas da mídia. As 59 propostas da Secom também revelam a
impropriedade de não se considerar o governo Lula como parte central na
aliança do campo popular para democratização da comunicação, incompreensão
que ainda permanece em alguns segmentos.

As grandes mudanças na comunicação do Brasil que dependem de mudanças
constitucionais ou de sua regulamentação desembocam necessariamente na
discussão do cenário que emergirá das urnas de 2010. Teremos uma maioria
parlamentar não-capturada pela bancada do coronelismo eletrônico com
capacidade para impor mudanças hoje? Essa base de sustentação deverá ser
construída a partir da Confecom para assegurar um processo de mudanças,
difíceis de ocorrer sem um campo popular organizado, no qual incluem-se
governo Lula, movimentos sindical-social, partidos políticos e até segmentos
não-monopolistas do empresariado.

A ciência da tática

Mas, há mudanças que podem ser operadas hoje, que estão ao alcance das
políticas de estado, de ações de governo. Exemplo disso é a proposta de
recuperação da RTVI (Rede de TVs Institucionais). Em 2004, Lula emitiu
decreto presidencial criando tal rede que levaria a todos os municípios
brasileiros, por meio de um sistema de repetição, o sinal das emissoras
institucionais, com a possibilidade de que houvesse a geração de programação
própria por um determinado período a cargo de municípios.

Como era esperado, tal proposta encontrou raivosa oposição da Abert. Mas,
obteve também a oposição, esta inesperada, da Fenaj, contrariada pela forma
do decreto-lei escolhida pelo presidente da República. Como se o presidente
eleito com mais 63 milhões de votos não tivesse representatividade para tal
decisão. Perdemos tempo.
Mas, com a Confecom a proposta pode ser recuperada, já que foi aprovada no
Paraná e no Rio de Janeiro. E pode ser atualizada para a tecnologia de TV
digital, podendo inclusive incorporar em seu novo formato as TVs
Comunitárias, evidentemente, operando em sinal aberto digital. O resultado
bem poderia ser a municipalização da TV no Brasil, com forte impulso na
indústria de equipamentos, gerando empregos, fortíssimo impulso no
audiovisual brasileiro, também ampliando empregos e inovação de linguagem,
identidade cultural e elevação estética, além de representar,
simultaneamente, a regionalização da produção jornalístico-cultural e a
integração informativo-cultural num país rico e continental, cujo vizinho, a
Colômbia, está a instalar bases militares dos EUA, provavelmente, não para
uma política de boa-vizinhança...

Portanto, é preciso definir prioridades nesta Confecom e entre elas está a
operação de políticas de comunicação e a construção de instrumentos de
comunicação pública que nos permitam, como povo cada vez mais organizado,
assegurar de fato a soberania informativo-cultural indispensável para que o
Brasil possa atuar com legítimo e mais eficiente protagonismo no perigoso e
explosivo jogo do poder político internacional.
Mesmo que enormes mudanças sejam necessárias no sistema de comunicação do
Brasil, devemos nos perguntar, nas condições atuais, na relação de forças
atuais, e dentro do arco de alianças indispensável para enfrentar potentes
oligopólios estrangeiros e internos, até onde vão as nossas forças e quais
são as propostas que mais nos unem agora?

Não será nesta Confecom o ajuste final de contas com a ditadura midiática.
Não será ainda o dia do juízo final midiático. Provavelmente, as forças
progressistas não tenham a possibilidade de fazer a "virada de mesa" que
desejam, inclusive porque muitas delas estavam céticas até mesmo quanto a
participar da Confecom. É apenas uma etapa mais elevada desta longa
caminhada, que deve ser aproveitada para alinhavar a sustentação e
implementação de várias propostas, algumas delas emblemáticamente defendidas
pelo próprio Governo Lula, sustentação que requer uma tática e um campo
popular da comunicação pública cada vez mais unido e fortalecido.

Beto Almeida é presidente da TV Cidade Livre de Brasília e membro da Junta
Diretiva da Telesur

Enviada por: Arnaldo Carrilho <arnaldocarrilho em yahoo.com.br>

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